O comércio entre Brasil e China atingiu US$ 143 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, um marco histórico impulsionado quase exclusivamente pelo petróleo. Mas a euforia esconde uma fragilidade estrutural que pode reverter o jogo nos próximos trimestres.
As exportações de óleo brasileiro para o gigante asiático dispararam 49%, somando US$ 21,8 bilhões. A China abocanhou metade de todo o petróleo que o Brasil vendeu ao exterior. O Rio de Janeiro, sozinho, tornou-se o estado que mais exporta para o país asiático.
Por que a China comprou tanto petróleo brasileiro de uma vez
A resposta não está em Pequim, mas no Golfo Pérsico. O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã — retaliação aos ataques de EUA e Israel — cortou mais da metade do petróleo que a China importa por via marítima. As refinarias chinesas precisaram de alternativa imediata, e o Brasil estava no lugar certo.
O petróleo já responde por um quarto de tudo que o Brasil vende aos chineses, ficando atrás apenas da soja. A concentração, porém, assusta quem olha o médio prazo.
O fôlego já está acabando no terceiro trimestre
Desde o acordo entre Washington e Teerã em junho, os embarques do Golfo (excluído o Irã) recuperaram 81% do volume pré-conflito. Ataques iranianos a petroleiros se intensificaram em outubro, mas a rota alternativa já funciona. O pico da demanda de emergência passou.
Do lado das importações brasileiras, a carne bovina expõe a dependência das regras de Pequim. Após o Brasil estourar a cota anual de uma salvaguarda chinesa, os embarques acima do limite passaram a pagar sobretaxa de 55% neste mês. Resultado: a China caiu para quinta maior compradora da carne brasileira em setembro.
Os dois pilares que Pequim pode apertar quando quiser
O cenário deixa o Brasil exposto a uma armadilha de concentração:
- Soja e petróleo somam a fatia esmagadora da pauta exportadora
- Ambos têm acesso controlado por decisões unilaterais de Pequim
- A salvaguarda da carne provou que a China usa ferramentas comerciais como alavanca política
O planejamento energético chinês segue ancorado na Rússia, no Oriente Médio e nos dutos da Ásia Central. O petróleo brasileiro foi solução de emergência, não escolha estratégica.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo. Primeira: a normalização do Estreito de Ormuz — se ocorrer, as refinarias chinesas retomam o óleo mais barato e próximo. Segunda: a revisão da lista de tecnologias com exportação restrita pela China, que já inclui 23 itens de inteligência artificial e, pela primeira vez, pesos de modelos e código-fonte. Terceira: a suspensão de 14 frigoríficos de Santa Catarina por foco de doença de Newcastle — em 2024, caso similar no Rio Grande do Sul levou 17 meses para ser revertido.
O quinto plenário do Comitê Central do Partido Comunista, a partir de 26 de outubro, focado em disciplina interna e lealdade a Xi Jinping, sinaliza que o ambiente de negócios continuará sujeito a decisões políticas centralizadas. Quem depende de acesso ao mercado chinês precisa diversificar destinos e monitorar gatilhos regulatórios — não apenas ciclos de commodity.
