A massa salarial do agronegócio atingiu R$ 72 bilhões no segundo trimestre, impulsionada por um recorde de 28,28 milhões de ocupados. O avanço esconde, however, uma divisão silenciosa: enquanto empregados e patrões veem os rendimentos subirem acima da inflação, quem trabalha por conta própria amarga queda real de 3,1%.
Os dados, compilados pelo Cepea e pela CNA, revelam um setor em transformação profunda. A formalização avança, o nível de escolaridade sobe e a pecuária assume o protagonismo nos ganhos. Mas o cenário para o segundo semestre reserva sinais de alerta.
A nova cara da força de trabalho no campo
O contingente total de trabalhadores cresceu 0,5% na comparação anual, puxado pelo avanço de 0,5% nos postos com carteira assinada, que somam 9,88 milhões. Ao mesmo tempo, a informalidade recuou: são 4,2 milhões sem registro, queda de 1,7%.
A participação feminina consolidou-se em 38% da força de trabalho. Outro marco estrutural é a educação: a população ocupada sem instrução caiu 3,3%, embora ainda represente 1,44 milhão de pessoas. Em contrapartida, profissionais com nível superior (completo ou incompleto) saltaram 5,4%, totalizando 4,94 milhões — 17% do total.
Onde o dinheiro está concentrado
Dos R$ 72 bilhões da massa salarial, a fatia majoritária foi para os empregados: R$ 46 bilhões, alta real de 2,8%. Os empregadores embolsaram R$ 9 bilhões, com expansão mais vigorosa, de 7,9%. O restante coube aos trabalhadores por conta própria, único grupo a ver a renda média encolher no período.
- Rendimento médio geral: R$ 2.972 (+3,7% real).
- Empregados da agricultura: R$ 2.154 (+4,4%).
- Empregados da pecuária: alta real de 8% no período.
- Empregadores rurais: entre R$ 8.615 (agricultura) e R$ 8.961 (pecuária).
Pecuária puxa a fila dos ganhos reais
O bom desempenho do ciclo pecuário explicam a discrepância. A arroba do boi gordo acumula alta de 4,4% apenas neste mês, cotada a R$ 380 — patamar que revisita o recorde real de novembro de 2020 (R$ 385 corrigidos). A oferta restrita de animais prontos para abate sustenta os preços mesmo após o fim da cota extra de 55% nas exportações para a China.
Esse cenário transferiu renda para a porteira da fazenda. Os trabalhadores da pecuária capturaram ganhos reais de 8%, enquanto os da lavoura ficaram em 4,4%. Para os patrões, a diferença é ainda mais nítida: alta de 14,5% na agricultura contra 5,7% na pecuária.
O alerta para os trabalhadores por conta própria
Enquanto a formalização avança e os salários sobem, os autônomos rurais viram a renda média cair 3,1% em termos reais. O grupo, que ainda responde por parcela significativa da ocupação no segmento primário, sente o peso da mecanização e da concentração fundiária.
Nos subsetores que mais empregam — bovinocultura (1,73 milhão), café (788 mil na safra) e horticultura (531 mil) —, a dinâmica é de substituição de mão de obra familiar por contratos formais ou tecnologias embarcadas.
O que observar daqui para frente
Três vetores devem ditar o ritmo do mercado de trabalho rural nos próximos trimestres. Primeiro, a manutenção da oferta restrita de boiadas, que sustenta a renda da pecuária mas pressiona custos da indústria. Segundo, a trajetória do arroz: após pico de R$ 83 a saca no Rio Grande do Sul, o cereal recuou para R$ 82, sinalizando alívio pontual nos custos de produção. Terceiro, a aceleração da exigência por qualificação — com 17% da força de trabalho já diplomada, a tendência é que a informalidade continue encolhendo, mas exigindo políticas de capacitação para não deixar para trás os 1,44 milhão ainda sem instrução.
