O Grupo Potencial acaba de confirmar um pacote de investimentos de R$ 6,2 bilhões que redesenha a geografia da energia renovável no Brasil. A meta é atingir faturamento de R$ 15 bilhões em 2027, um salto agressivo frente aos R$ 13 bilhões projetados para este ano. Mas o que torna esse movimento único não é apenas o volume de capital.
A estratégia combina a construção de uma nova usina de etanol de milho com a expansão simultânea da capacidade de biodiesel em três estados-chave. Essa abordagem integrada coloca a companhia em posição rara: a de controlar a oferta de matéria-prima e a logística de distribuição em escala nacional.
O eixo da expansão: Bahia, Minas e Rio Grande do Sul
Os recursos serão alocados em frentes distintas, mas conectadas. No Rio Grande do Sul, berço do grupo, o foco permanece na ampliação do complexo industrial já existente. Paralelamente, Bahia e Minas Gerais recebem aportes para novas unidades de esmagamento e produção.
Essa descentralização geográfica resolve um gargalo histórico do setor: a dependência logística de um único corredor de escoamento. Com fábricas no Nordeste, Sudeste e Sul, a empresa reduz custos de frete e ganha resiliência climática — se a safra falha em uma região, as outras compensam.
- Bahia: Nova unidade de esmagamento de soja e produção de biodiesel.
- Minas Gerais: Foco na usina de etanol de milho (DDG incluso).
- Rio Grande do Sul: Expansão da capacidade atual de biodiesel e refino.
Por que o milho muda o jogo do etanol
A entrada no etanol de milho não é uma aposta isolada; é uma trava de segurança financeira. Diferente da cana-de-açúcar, o milho permite safras múltiplas por ano e armazenagem longa, garantindo moagem contínua e receita previsível. O subproduto — o grão seco de destilaria (DDG) — abre uma segunda frente de receita no mercado de nutrição animal.
Essa verticalização permite ao grupo capturar margem em toda a cadeia: da originação do grão à venda do biocombustível e da ração. Em um cenário de volatilidade do petróleo e do dólar, ter fluxo de caixa em reais lastreado em commodities agrícolas é um hedge natural poderoso.
O efeito cascata no mercado de biodiesel
Com a expansão prevista, a capacidade instalada do grupo deve ultrapassar a casa de 2 bilhões de litros anuais de biodiesel. Isso representa uma fatia significativa da mistura obrigatória nacional, atualmente em 14% (B14) e com cronograma para atingir B15 em 2025.
Para o produtor rural, a notícia sinaliza demanda firme por soja e milho nos próximos anos. Para o distribuidor, indica estabilidade de oferta — risco de desabastecimento regional cai drasticamente. Já para o investidor, o múltiplo de valuation da companhia tende a ser reprecificado à medida que as novas plantas entrarem em operação, previstas entre 2025 e 2026.
O que observar daqui para frente
O cronograma físico das obras é o termômetro real. A licença ambiental da usina mineira de etanol e o ritmo das terraplanagens na Bahia ditam se a meta de 2027 é factível ou otimista. Outro ponto crítico: a regulação do RenovaBio e o preço dos CBIOs (Créditos de Descarbonização), que compõem até 15% da receita líquida do setor.
Se o câmbio permanecer acima de R$ 5,20 e a soja em Chicago sustentar patamares acima de US$ 12/bushel, a equação econômica fecha com folga. Caso contrário, a alavancagem financeira do grupo — que deve subir no curto prazo para financiar o Capex — exigirá monitoramento rigoroso da geração de caixa operacional. O próximo balanço trimestral trará os primeiros sinais de execução.
