Javier Milei assumiu a Casa Rosada em dezembro de 2023 com uma motosserra na mão e a promessa de zerar o déficit público a qualquer custo. Quase três anos depois, a inflação anual caiu de mais de 200% para 33,4%, mas um em cada três argentinos vive na pobreza e 30 mil empresas fecharam as portas. O ajuste funcionou no papel — e agora?
Os números oficiais do Indec mostram uma desaceleração brutal: 1,9% em setembro contra 1,7% em agosto. O peso valorizou, os juros recuaram e o Tesouro registra superávit primário raro na história recente. Para o investidor olhando de fora, o balanço parece positivo. Mas a camada social revela rachaduras que não aparecem no relatório fiscal.
A vitória nos números que ninguém discute
O choque de ortodoxia produziu resultados imediatos nas variáveis macroeconômicas. A âncora cambial e o corte profundo de subsídios estancaram a emissão monetária. Em doze meses, o Índice de Preços ao Consumidor acumulou 33,4% — ainda alto, mas uma fração do que era herdado. O superávit fiscal abriu espaço para queda de juros e atraiu fluxos de curto prazo.
O câmbio, historicamente volátil, mostrou estabilidade incomum. Reservas internacionais subiram com a liquidação de exportações do agro. No papel, o paciente está estabilizado. O problema é o que aconteceu com o corpo enquanto a febre era tratada.
O custo social que os indicadores escondem
A pobreza urbana saltou para 52,9% no primeiro semestre de 2024, no auge do aperto. Recuou para 28,2% no fim de 2025, mas voltou a subir em 2026, atingindo 32% atualmente. A indigência — quem não compra a cesta básica — foi de 6,3% para 7,5%. Em termos práticos: um a cada 13 moradores das grandes cidades não tem renda para se alimentar.
- Pobreza: 52,9% (H1/2024) → 28,2% (Fim 2025) → ~32% (Atual)
- Indigência: 6,3% → 7,5% (mesmo período)
- Informalidade: 45% dos ocupados sem carteira assinada
O recuo temporário da pobreza em 2025 coincidiu com a recomposição parcial de salários reais e programas focalizados. A reversão recente sugere que o piso de proteção social foi frágil.
Mercado de trabalho: mais gente procurando, menos carteira assinada
O desemprego herdado era de 5,7%. Disparou para 7,7% no primeiro semestre de 2024, caiu a 6,4% no fim do ano, mas fechou 2025 em 7,5%. Agora está em 7,9%. A taxa não explode porque a informalidade absorve a força de trabalho expulsa do setor formal — 45% dos ocupados hoje não têm férias, 13º nem contribuição previdenciária.
Mais gente procurando emprego mascara a deterioração da qualidade da ocupação. É um mercado que “funciona” na estatística, mas precariza a renda média.
O sangramento do setor produtivo
Desde a posse de Milei, 30.633 empresas encerraram atividades — cerca de 6% dos empregadores privados, segundo Fundar e CEPA. Só na indústria, 4.020 fecharam, eliminando mais de 97 mil postos formais até maio. Enquanto isso, importações de eletrodomésticos mais que dobraram e as de roupas subiram 86% frente ao primeiro semestre de 2023.
A abertura comercial abrupta, sem transição setorial, expôs parques industriais de décadas a concorrência externa com câmbio apreciado. O protecionismo peronista foi desmontado em meses, não em anos.
O espelho brasileiro: por que isso importa para você
O modelo argentino virou referência explícita na campanha brasileira. A coordenadora do senador Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, citou Milei como inspiração para “atrair investimentos e reduzir impostos”, prometendo revogar mais de mil normas infralegais. Flávio reuniu-se com Milei em Buenos Aires em junho; o argentino retribuiu em São Paulo na convenção do PL, gerando incidente diplomático com o Itamaraty.
O “tesouraço” proposto no Brasil mira o mesmo diagnóstico: gasto público insustentável. Mas a estrutura produtiva, a rede de proteção social e a moeda própria brasileira são distintas. O laboratório argentino oferece dados, não receitas prontas.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se o ajuste se sustenta ou derrapa: (1) a capacidade de sustentar superávit sem nova recessão; (2) a resposta política ao empobrecimento da classe média, base eleitoral volátil; (3) a recomposição do tecido industrial sob câmbio forte e abertura total. Para quem opera no Cone Sul, o sinal de alerta não é a inflação — é a destruição de capacidade produtiva que a desinflação custou. O próximo trimestre dirá se o piso de 32% de pobreza é teto ou chão.
