A Lindt & Sprüngli demitiu o CEO Adalbert Lechner e convocou o antecessor Dieter Weisskopf para comandar a empresa interinamente. A medida drástica expõe a urgência do grupo suíço em reverter a desaceleração brutal nas vendas europeias. O mercado reagiu mal à estratégia de preços dos últimos anos.
As ações da chocolateria acumulam queda superior a 25% apenas em 2026. Investidores cobram respostas para o encolhimento do volume de vendas, mesmo com reajustes agressivos nos tabletes.
O choque de preços que afastou o consumidor
Desde 2022, a Lindt elevou seus preços em 40%, segundo análise do Barclays. No mesmo período, o volume de vendas avançou apenas 2%. A equação não fechou: o consumidor europeu reduziu a compra de itens premium diante da inflação alimentar.
Dados de leitura de código de barras em supermercados da Europa Ocidental confirmam o desastre. Nas quatro semanas até 6 de setembro, as vendas da marca recuaram 10%. A onda de calor prolongada no continente foi citada como agravante, mas a resistência de preço é o fator estrutural.
Cenário do cacau pressiona margens
A volatilidade do cacau bagunçou o planejamento da indústria nos últimos três anos. Após repassar as máximas históricas de 2024 ao varejo, a matéria-prima barateou. A Lindt, no entanto, manteve a trajetória de alta: os preços subiram 11,8% no primeiro semestre de 2026 na comparação anual.
Essa decisão protegeu a margem no curto prazo, mas corroeu a competitividade. Concorrentes que ajustaram preços para baixo ganharam espaço nas gôndolas.
Foco imediato: Europa e rentabilidade
Weisskopf, que deixou o cargo em 2022, assumiu com mandato claro. Suas prioridades declaradas incluem:
- Recolocar as operações europeias em trajetória de crescimento;
- Manter o desempenho robusto na América do Norte e Ásia;
- Investir pesado em marketing de marca;
- Melhorar a rentabilidade operacional.
O executivo conhece a casa e evita a curva de aprendizado. O presidente do conselho, Ernst Tanner, já avisou: a busca por um CEO definitivo deve terminar no segundo trimestre de 2027.
Mudança também na gestão regional
A troca no comando global veio acompanhada de outra substituição estratégica. O responsável pelas operações na Alemanha e Áustria — mercados que registraram os piores números recentes — também foi substituído. O sinal é de que a reestruturação atinge a linha de frente comercial, não apenas a diretoria.
O que observar nos próximos trimestres
A eficácia da volta de Weisskopf será medida pela capacidade de estancar a queda de volume sem destruir margem. O primeiro teste real virá com os números do quarto trimestre, tradicionalmente forte por conta do Natal. Se a Europa não der sinais de recuperação até lá, a pressão por uma reestruturação mais profunda — incluindo possíveis aquisições ou venda de ativos — deve voltar à mesa do conselho.
