A Índia, maior consumidora mundial de açúcar e segunda maior produtora, enfrenta a pior safra em 11 anos após um El Niño devastador secar canaviais inteiros. O resultado: preços globais dispararam justamente na temporada de festivais hindus, quando a demanda por doces explode.
Mas o choque vai muito além da mesa do consumidor. A escassez ameaça a meta nacional de misturar 20% de etanol à gasolina — pilar da estratégia indiana para reduzir importações de petróleo enquanto rotas do Oriente Médio seguem instáveis.
O efeito nos pequenos negócios rurais
Em Marathwada, epicentro da crise, o agricultor Morarji Patil, 30 anos, esperava colher 70% menos que o normal. Seus pés de cana, atrofiados pela falta de chuvas no verão, mal alcançavam a altura dos joelhos. O poço de 244 metros de profundidade secou pela primeira vez.
Endividado com fertilizantes e sem trator — tomado pelo banco —, Patil ingeriu inseticida. Sobreviveu, mas as despesas médicas o empurraram para novos empréstimos. Seu caso não é isolado: a região registra onda de protestos e o governo alertou comerciantes contra formação de estoques.
Dados do setor mostram que a Índia, exportadora habitual, precisou abrir as portas às importações em 2024, pressionando ainda mais as cotações internacionais.
Por que o etanol virou vilão dos motoristas
A determinação federal de 20% de etanol na gasolina criou receita extra para usinas, mas gerou revolta nas ruas. Aditya Kare, 21 anos, viu o rendimento de sua moto cair de 60 para 45 km/litro. Com 100 rúpias (R$ 5,05) de mesada semanal, a conta não fecha.
- Redução média de autonomia: 25% em veículos antigos
- Reclamação principal: danos a motores não compatíveis
- Resposta do governo: reconheceu impacto “pequeno” na eficiência, negou falhas generalizadas
O comunicado oficial de julho não conteve a migração planejada: muitas famílias já pesquisam motos elétricas.
O paradoxo da cana sedenta
Ganesh Gomare, 38 anos, ampliou a área de cana atraído pelos lucros relativos e usinas próximas. A aposta falhou: colherá metade do volume normal. A represa do rio Manjara virou vala seca; lagos desapareceram.
“Esse ambiente não é bom para a cana. Mas a economia de Marathwada depende da cana”, resume Gomare. O vizinho Dagdu Venkat Rao Padile, 66 anos, arrancou pés com nós encurtados: “Vai me custar mais cortar do que vou receber”. Ele plantou apenas 25% da área habitual.
O que observar daqui pra frente
A Federação Nacional de Usinas Cooperativas nega desabastecimento e condena “compras de pânico”. Ainda assim, a Gurukrupa Farsan Mart em Chhatrapati Sambhajinagar repassou alta de 10% em doces típicos — modaks e laddoos — e vende menos unidades por cliente.
O cenário para 2025 depende de três variáveis: a intensidade do próximo El Niño, a disposição do governo em manter o mandato de etanol sem subsídios adicionais e a velocidade de recarga dos aquíferos. Para investidores, o sinal está nos contratos futuros de açúcar em Nova York e Londres: a volatilidade deve persistir enquanto a monção de 2025 não mostrar a cara.
