O dólar recuou 0,25% e fechou a manhã cotado a R$ 5,059, enquanto a nova pesquisa BTG/Nexus mostra os dois presidenciáveis tecnicamente empatados a uma semana do segundo turno. O empate numérico de 0,6 ponto percentual, no entanto, esconde um dado mais incômodo para quem precifica risco fiscal.
O Boletim Focus divulgado hoje elevou a projeção de IPCA para 2027 a 4,32%, acima do teto da meta de 4,5%, ao mesmo tempo em que reduziu as estimativas de crescimento do PIB para os próximos três anos. O mercado precifica incerteza, mas os números mostram que o custo da instabilidade já está nas contas.
O que move o câmbio nas vésperas da decisão
A pesquisa divulgada nesta segunda coloca Flávio Bolsonaro (PL) com 50,3% dos votos válidos contra 49,7% de Lula (PT). A margem de erro é de dois pontos percentuais. Na rodada anterior, de 13 de outubro, a diferença era de 3,2 pontos a favor do senador; agora, caiu para 0,6 ponto. A oscilação ocorreu inteiramente dentro da margem estatística, mas foi suficiente para tirar o dólar da casa dos R$ 5,07.
Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, resume o sentimento da Faria Lima: “Quem mexe com preço agora são as pesquisas, não o debate”. O encontro de domingo (18) teve impacto marginal nos ativos, marcado mais por ataques pessoais do que por propostas econômicas concretas. Até 25 de outubro, cada nova sondagem e cada sinal sobre a futura equipe econômica funcionarão como gatilho de curto prazo.
Ibovespa dividido: petróleo derruba Petrobras, varejo respira
O índice abriu em alta, mas inverteu o sinal no fim da manhã, pressionado pela queda de 1,50% do barril do Brent, a US$ 108,18. As ações da Petrobras acompanharam a commodity. Do lado positivo, bancos e varejistas recuperaram parte das perdas da semana passada, quando o Senado aprovou a proposta de redução da jornada de trabalho. A Vale também avançou, amparada pela valorização do minério de ferro no exterior.
O cenário reflete a seletividade do investidor local: setores sensíveis a juros e consumo reagiram aliviados ao recuo do dólar, enquanto a exposição a commodities externas ditou o ritmo das pesadas.
O alerta silencioso do Boletim Focus
Enquanto a eleição domina as manchetes, o Focus trouxe projeções que desenham um quadro estrutural mais desafiador. Os economistas consultados pelo Banco Central revisaram as contas para pior:
- IPCA 2027: subiu de 4,30% para 4,32% (acima do teto de 4,5%)
- IPCA 2026: mantido em 5,22% — também acima da meta
- PIB 2026: caiu de 1,85% para 1,83%
- PIB 2027: recuou de 1,40% para 1,32%
- PIB 2028: caiu de 1,83% para 1,81%
- Selic fim de 2026: estável em 13,25% ao ano (dois cortes de 0,25 pp em nov/dez)
A Selic atual está em 13,75% ao ano. A manutenção da taxa terminal em 13,25% sinaliza que o mercado não enxerga espaço para afrouxamento agressivo, mesmo com crescimento mais fraco.
Juros futuros e o termômetro externo
No mercado de DI, as taxas operaram perto da estabilidade. O contrato para janeiro de 2028 fechou a 12,905% ao ano (-0,01 pp) e o para janeiro de 2035 a 12,875% (-0,01 pp). A curva longa, portanto, não precificou prêmio adicional de risco na sessão.
Lá fora, o rendimento da T-note de 10 anos subiu a 5,125% (+0,05 pp) e a de 30 anos a 5,464% (+0,04 pp). O movimento coincide com a correção de cerca de 5% no Nasdaq na última semana, puxada por dúvidas sobre a sustentabilidade das valorações em inteligência artificial. William Castro Alves, da Avenue Securities, nota que a concentração do mercado sul-coreano em semicondutores (Samsung e SK Hynix) amplifica a volatilidade global.
Em Nova York, porém, o humor melhorou: Dow Jones +0,24%, S&P 500 +0,73%, Nasdaq +1,74% — um alívio técnico após a sexta-feira negativa.
O que observar daqui para frente
A próxima reunião do Fed, em 27 e 28 de outubro, tem 82,8% de probabilidade de manutenção dos juros na faixa de 3,75% a 4,00%, segundo o CME FedWatch. A temporada de balanços ganha força com Netflix, Meta, Tesla, 3M, Abbott, Philip Morris, Spotify e American Express reportando resultados. Para o investidor brasileiro, três variáveis merecem monitoramento diário até o segundo turno: novas pesquisas eleitorais, anúncios de nomes para a equipe econômica e a reação do dólar ao diferencial de juros externo. O fechamento da curva de juros longa sugere que, por ora, o mercado aceita o cenário-base — mas a margem de segurança é estreita.
