Economia

O segredo por trás do controle da Pincred: irmãos, BC e Cade em rota de colisão…

Disputa regulatória entre Banco Central e Cade sobre controle da Pincred envolve irmãos Kallas
Documentos mostram autorizações conflitantes do BC e Cade para os irmãos Kallas na Pincred

Documentos oficiais colocam em xeque quem realmente comanda a financeira piauiense Pincred. O Banco Central autorizou Francine Kallas a assumir o controle em agosto, mas o Cade já havia dado aval ao irmão dela, Lucas Kallas, ano e meio antes. A contradição expõe uma zona cinzenta na fiscalização de instituições financeiras no país.

Para o mercado, a dúvida não é burocrática: define se o dono atende aos requisitos de idoneidade e capacidade financeira exigidos pela legislação. E lança luz sobre uma teia de relações que envolve o Banco Master, investigações criminais e conexões no alto escalão do Judiciário.

Duas autorizações, um mesmo ativo

Em agosto de 2024, o BC deferiu o pedido para que Francine Kallas passasse a controlar a Financeira Pintos, conhecida como Pincred. O detalhe: em fevereiro de 2023, o Cade já havia aprovado a aquisição da mesma empresa por Lucas Kallas, fundador da Cedro Mineração.

Ambas as autarquias analisam critérios semelhantes — reputação ilibada, origem lícita dos recursos e solvência. Porém, não está claro se o Banco Central avaliou apenas Francine ou também o irmão, que já era o comprador oficial perante a defesa da concorrência.

Até o momento, nenhum dos dois possui condenação judicial transitada em julgado. Pela diretriz da Procuradoria-Geral do BC, isso impede o veto automático à operação, mesmo que o controle efetivo pertença a Lucas.

O fio que puxa a novela: Operação Parcours e o Banco Master

Lucas Kallas foi indiciado pela Polícia Federal na Operação Parcours, que apura extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Minas Gerais. Semanas depois, anunciou sua saída da presidência do conselho da Cedro Participações, holding que controla a mineradora e tem braços em agro, logística, imobiliário e saúde.

A proximidade com Daniel Vorcaro, do Banco Master, aparece em múltiplos episódios:

  • Viagem conjunta à Venezuela em outubro de 2023 para prospectar negócios em petróleo;
  • Investimentos cruzados na biotecnológica Biomm;
  • Cedro contratada para construir hospitais da Oncoclínicas, da qual Vorcaro era sócio;
  • Empréstimo de R$ 254,8 milhões do Master para Lucas em abril de 2024, depois cedido ao Banco Voiter — sem confirmação pública de quitação.

Mensagens de WhatsApp obtidas pela imprensa mostram que Vorcaro tentou repassar esse crédito ao BRB (banco estatal do DF), mas o compliance da instituição barrou a operação devido às investigações contra Kallas.

O que dizem os envolvidos e os órgãos

Em nota, a assessoria dos irmãos afirma que ambos integram o bloco de controle da Cedro Participações e que a aquisição da financeira seguiu os mesmos documentos apresentados ao BC e ao Cade, “que aprovaram a operação sem ressalvas”. Sobre a Operação Parcours, a defesa de Lucas declara confiar no reconhecimento de sua inocência, citando fatos antigos já arquivados pela Justiça.

O Cade, por sua vez, informa não ter sido notificado formalmente sobre qualquer reestruturação societária posterior à sua aprovação. Para a autarquia, os efeitos concorrenciais não mudariam caso o grupo econômico comprador permaneça o mesmo.

O Banco Central não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Conexões que chamam a atenção do mercado

Além do circuito financeiro, Lucas Kallas mantém vínculos com figuras do Supremo Tribunal Federal. A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, assumiu sua defesa em processo sobre a Serra do Curral. O instituto educacional fundado pelo ministro André Mendonça firmou contrato de R$ 5,9 milhões com a Cedro Participações. E o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, atua na defesa de Kallas em acusações de crime ambiental.

Essas relações não configuram irregularidade, mas elevam o escrutínio sobre a transparência das decisões regulatórias envolvendo o grupo.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem acompanhamento nos próximos meses: (1) eventual manifestação do BC sobre a duplicidade de controle; (2) desdobramentos da Operação Parcours e eventuais condenações que alterem o status de idoneidade; (3) a posição do Cade caso seja formalizada a mudança de controle para Francine — o que pode reabrir a análise concorrencial. Para investidores e credores da Pincred, a clareza sobre quem dá as ordens na financeira deixa de ser detalhe societário e vira questão de risco de crédito e governança.