Economia

Euforia eleitoral na LatAm vira pó: o alerta que o Brasil ignora…

Gráfico de queda bolsas latino-americanas pós-eleições com destaque Brasil
O rali eleitoral na América Latina desmorona diante da realidade fiscal

Os mercados latino-americanos, impulsionados por uma onda de vitórias conservadoras, começam a devolver ganhos expressivos enquanto promessas de campanha esbarram na dura realidade fiscal. Gestores de fundos globais já reduzem posições, semeando dúvidas sobre a sustentabilidade do rali que colocou o Brasil no radar de grandes investidores.

A euforia pós-urna não resistiu ao primeiro teste de governabilidade. A colisão entre discursos de campanha e a matemática do orçamento público expõe um padrão perigoso para quem aposta em continuidade.

O efeito dominó: Colômbia e Chile antecipam o roteiro

Na Colômbia, a vitória de Abelardo de la Espriella em maio disparou a moeda e fez as ações saltarem mais de 20% em relação às mínimas. Dois meses após a posse, o ímpeto evaporou. A equipe do novo presidente admite enfrentar a pior crise fiscal desde o século XIX.

No Chile, o recorde histórico das ações após a eleição de José Antonio Kast, há 11 meses, perdeu fôlego. O mesmo roteiro se repete no Peru e no Equador: líderes de direita eleitos com apoio do mercado veem a popularidade derreter e a agenda de reformas travar no Congresso.

Brasil no centro das apostas — e dos riscos

O cenário externo serve de alerta direto para o Brasil. Desde meados de agosto, a expectativa de uma troca de comando no Planalto impulsionou as ações locais em mais de 20%. A aposta é que Flávio Bolsonaro supere Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas deste mês.

Mas a lição dos vizinhos é clara: capital político se esgota rápido. A transição de “eleição de mudança” — baseada na rejeição do status quo — para uma agenda de austeridade efetiva raramente é automática.

Gestores divididos: quem vende e quem mantém a posição

A reação do “dinheiro grande” já aparece nos números. O fundo londrino Frontier Road e a Fidelity International cortaram exposição à região. Martin Bercetche, da Frontier Road, manteve-se “muito otimista” por 18 meses, mas agora diz: “Essa tese se confirmou em grande parte. Fora o Equador, estamos muito leves”.

Do outro lado, Eric Fine, da VanEck, mantém “sobreponderação máxima” em títulos brasileiros em moeda local. Ele vê espaço para ganhos, mas admite o teto: os desafios fiscais internos podem limitar o upside. Matthew Graves, da PPM America, resume o ceticismo: “Riscos reais de que a euforia inicial dê lugar à desilusão”.

O caso Equador: lição rápida de capital político

Daniel Noboa, no Equador, ilustra a velocidade da virada. A popularidade inicial, turbinada pelo combate ao crime, permitiu reformas fiscais e corte de déficit. Meses depois, a aprovação despencou. A reintrodução de subsídios de combustível — pressionada por choque energético — fez os títulos em dólar do país caírem mais de 3% em três meses.

O índice MSCI da América Latina, que subiu 70% desde o início de 2025, agora sente o peso desse arrependimento coletivo. Títulos do Peru seguem o mesmo caminho descendente.

O que separa o ruído da oportunidade real

Para Polina Kurdyavko, da RBC BlueBay, o Brasil ainda pode entregar retornos de dois dígitos nos próximos 12 meses. A condição é dura: o próximo governo precisa focar no Congresso e aprovar um orçamento “muito mais enxuto”. Se a prioridade for outra, “o protesto terá duração relativamente curta”.

Há sinais mistos. Autoridades colombianas em Nova York projetam cortar o déficit em mais de 4 pontos percentuais até 2030. No Brasil, um Congresso inclinado à direita a partir de 2027 daria suporte legislativo. Mas no Peru, Keiko Fujimori viu a popularidade ruir em meses. Na Argentina, a queda de Javier Milei antecipa nervosismo um ano antes da eleição, com yields soberanos de volta a dois dígitos.

  • MSCI LatAm: +70% desde jan/2025 (agora em correção).
  • Títulos Equador/Peru: -3% em 3 meses (dólar).
  • Ibovespa: +20% desde ago/2026 (expectativa eleitoral).
  • Argentina yields: Voltar a 2 dígitos (risco político).

O que observar daqui para frente

Eamon Aghdasi, da GMO, crava a métrica que importa: “Investidores buscam melhor desempenho fiscal e estabilidade política. Não temos evidências de nenhuma das duas ainda”. O teste real não é a urna, mas a votação do orçamento e a resistência a pressões populistas nos primeiros seis meses de mandato.

Para o investidor exposto à região, a lição prática é monitorar a execução fiscal concreta, não discursos de posse. O prêmio de risco latino-americano só se justifica se a “mudança” virar lei — e não apenas manchete.