O economista britânico Guy Standing classifica a disputa presidencial brasileira de 2026 como a primeira decidida estruturalmente pelo “precariado” — a nova classe de massa definida pela insegurança crônica, dívida generalizada e direitos frágeis. A previsão que fez há 15 anos sobre o poder político desse grupo se confirmou nos EUA e no Reino Unido. Agora, o cenário se repete no Brasil com contornos próprios.
Mas o que transforma uma eleição comum em uma “eleição do precariado”? A resposta está na fragmentação de interesses que o modelo tradicional de análise não capta.
As três dimensões que criaram a nova classe de massa
Standing não usa o termo como metáfora. Ele identifica uma estrutura de classe concreta, sustentada em três pilares que diferenciam o precariado do antigo proletariado ou do informal:
- Relações de produção instáveis: Trabalhadores com escolaridade superior à exigida pelo emprego, aceitando jornadas imprevisíveis e tarefas não remuneradas impostas pelo Estado (burocracia, filas, formulários).
- Dependência exclusiva do salário monetário: Sem acesso a benefícios não salariais, bens comuns ou proteção universal. É a primeira classe de massa sistematicamente explorada pelo endividamento crônico.
- Perda de direitos estatais: A sensação de “mendicância” ao depender de favores de proprietários, empregadores e burocratas para acessar serviços básicos.
Essa combinação gera um ressentimento difuso — contra o Estado, contra a financeirização e, paradoxalmente, contra a esquerda que não impediu a precarização.
A fratura interna que define o voto
O erro dos analistas é tratar o precariado como bloco monolítico. Standing divide o grupo em dois polos antagônicos, o que explica a volatilidade eleitoral:
Atavistas (menos escolarizados): Olham para um passado idealizado. São o combustível do populismo de direita, sensíveis a discursos de “grandeza”, família e ultranacionalismo. Foram decisivos para Trump em 2016 e, em parte, para Bolsonaro em 2018.
Progressistas (mais escolarizados): Investiram em diplomas com a promessa de estabilidade que não veio. Rejeitam a extrema direita, mas não veem alternativa no establishment burocrático. No Brasil, com voto obrigatório, tendem ao voto nulo, branco ou abstenção — o que, na prática, fortalece o polo oposto.
Por que 2026 é diferente de 2018
Para Standing, a eleição de 2018 foi movida por indignação com corrupção e violência. A de 2026, mesmo com indicadores econômicos razoáveis, reflete a consolidação da estrutura de classes. O “salariado” (emprego seguro) e as elites rentistas, desvinculados do Estado de bem-estar, tendem a apoiar a extrema direita por cálculo de preservação de ativos, mesmo rejeitando seu estilo.
O resultado é uma equação perigosa: a esquerda tradicional (PT) não conseguiu evoluir do Bolsa Família para uma renda básica universal ou para a recuperação dos bens comuns. O vácuo foi ocupado.
O fator financeiro: dívida como moeda política
O endividamento recorde das famílias brasileiras não é apenas um dado macroeconômico. Para o precariado, a dívida sufoca a esperança de mobilidade. Standing cita Aristóteles: a combinação de alta desigualdade e endividamento generalizado historicamente leva à tirania. A insegurança crônica torna o eleitor intolerante, impaciente com promessas de longo prazo e receptivo a soluções autoritárias imediatas.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o diagnóstico de Standing se confirma nas urnas e no pós-eleição: a taxa de abstenção/nulos entre os mais escolarizados (termômetro do desengajamento progressista), a capacidade de mobilização dos atavistas via redes sociais e discursos de “restauração”, e a reação do mercado à eventual radicalização política. Para o empresariado e investidores, o sinal de alerta não é apenas o resultado das urnas, mas a incapacidade sistêmica de endereçar a insegurança que alimenta a instabilidade.
