O governo acaba de turbinar em 50% o maior edital de subvenção econômica voltado às regiões menos industrializadas do país. São R$ 450 milhões a fundo perdido para 114 projetos de risco tecnológico no Norte, Nordeste e Centro-Oeste — e a fatia destinada a micro e pequenas empresas surpreende.
A complementação de R$ 150 milhões foi confirmada em 16 de outubro pela ministra Luciana Santos, elevando o valor inicial de R$ 300 milhões. O anúncio sinaliza que a estratégia de descentralizar inovação saiu do papel e ganhou musculatura orçamentária.
Como o dinheiro será dividido entre as três regiões
A distribuição original do edital — mantida após a suplementação — reflete o tamanho dos desafios regionais:
- Nordeste: R$ 150 milhões (maior fatia)
- Centro-Oeste: R$ 100 milhões
- Norte: R$ 50 milhões
Os recursos são não reembolsáveis, ou seja, não há obrigação de devolução. A Finep assume o risco tecnológico ao lado do empresário — um modelo que reduz a barreira de entrada para P&D em mercados onde capital de risco é escasso.
O perfil dos contemplados quebra a lógica tradicional
Dos projetos aprovados na fase inicial, 75% pertencem a microempresas (faturamento até R$ 1 milhão) e empresas de pequeno porte (até R$ 4,8 milhões). Não são as grandes corporações que costumam absorver verbas de inovação; são negócios locais, muitas vezes nascidos de spin-offs universitários ou de necessidades produtivas regionais.
“É uma oportunidade para que o Estado compartilhe o risco do desenvolvimento tecnológico com as empresas”, resume Luiz Antônio Elias, presidente da Finep. A frase resume a mudança de paradigma: o poder público deixa de ser apenas financiador para se tornar sócio de risco em territórios onde o mercado não chega sozinho.
O que está por trás do aumento de 50% no orçamento
A suplementação não foi um gesto isolado. Ela ocorre num momento em que a pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação tenta reverter décadas de concentração de recursos no eixo Sul-Sudeste. O edital Mais Inovação Brasil faz parte de uma arquitetura maior que inclui:
- Linhas de crédito subsidiado para inovação (Finep Inova)
- Programas de capacitação tecnológica para gestores regionais
- Parcerias com institutos federais e universidades do interior
Mas o efeito prático mais imediato é a ampliação do número de projetos contemplados — muitos ficaram na fila na primeira rodada por falta de verba.
Setores prioritários e critérios de seleção
Embora o edital não trave setores, a Finep prioriza projetos com impacto no desenvolvimento regional e relevância social. Na prática, isso direciona recursos para:
- Biotecnologia e bioeconomia (especialmente no Norte)
- Energias renováveis e eficiência hídrica (Nordeste)
- Agrotech e logística inteligente (Centro-Oeste)
- Saúde digital e educação tecnológica (transversais)
Projetos de risco tecnológico elevado — aqueles que bancos privados recusam financiar — ganham preferência. É o “vale da morte” da inovação sendo preenchido com dinheiro público estratégico.
Prazos e próximos passos para quem quer acessar
A segunda rodada já está com projetos selecionados. A suplementação serve para contemplar mais propostas bem avaliadas que ficaram fora do corte inicial. Não há nova inscrição aberta neste momento.
Empresas interessadas em rodadas futuras devem monitorar o site da Finep e preparar:
- Plano de P&D com metas técnicas e mercadológicas claras
- Comprovação de capacidade de execução (equipe, infraestrutura, parcerias)
- Demonstração de como a inovação gera externalidades positivas na região
O diferencial competitivo não é apenas a tecnologia — é a capacidade de provar que o projeto move a economia local.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o edital cumpre a promessa de reduzir assimetrias: a taxa de execução orçamentária (recursos liberados vs. empenhados), a sobrevivência das empresas após o fim do subsídio e a geração de propriedade intelectual com potencial de escala. O primeiro balanço concreto sai em 2027. Até lá, o mercado regional ganha fôlego — e um teste real de maturidade.
