Mensagens obtidas com exclusividade revelam que o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e sua chefe de marketing, Ana Matos, condicionaram uma entrevista na CNN Brasil à aprovação prévia de todas as perguntas. A exigência ocorreu em abril de 2025, dias após o anúncio da venda do controle do banco para o BRB, enquanto a instituição já pagava R$ 10 milhões anuais em publicidade à emissora.
O que as conversas mostram vai muito além de uma negociação de pauta: expõem uma teia de aportes, tentativas de ingresso no quadro societário de um novo canal e pressões comerciais constantes. O desfecho conhecido — a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro — lança luz sobre até onde essa relação chegou.
A pressão por perguntas “100% combinadas”
No dia 3 de abril de 2025, às 7h26, Vorcaro avisou a executiva que havia falado com João Camargo, então presidente do conselho da CNN, sobre ir ao ar comentar o balanço. A resposta de Ana Matos foi direta: ele só iria se as perguntas do jornalista Fernando Nakagawa fossem acertadas antes. “Tudo combinado. 100%”, escreveu ela.
O receio de exposição fez Vorcaro recuar. Ele escalou o economista-chefe Paulo Gala para a sabatina das 18h, após um media training feito às pressas para evitar “cascas de banana”. A entrevista foi ao ar no CNN Money e o site da emissora publicou manchete favorável à operação com o BRB.
Nakagawa, por sua vez, nega qualquer interferência. Afirma que abordou temas sensíveis, como a sustentabilidade dos CDBs a 140% do CDI e o uso do FGC. As mensagens, porém, não registram quais perguntas teriam sido combinadas.
O dinheiro por trás da influência
A relação financeira era robusta e multifacetada. Veja os valores que aparecem nos diálogos:
- R$ 10 milhões/ano: contrato de publicidade padrão na CNN Brasil.
- R$ 4 milhões (pedido inicial): patrocínio do evento “CNN Talks” em agosto de 2024.
- R$ 1 milhão (valor fechado): patrocínio final do mesmo evento, após negociação.
- R$ 12 milhões: cota de “sócio fundador” do CNN Money, canal lançado em novembro de 2024.
Ana Matos resumiu a dinâmica em setembro de 2024: “A CNN me parece outro saco sem fundo de querer grana”. Dias depois, alinhou com Vorcaro que o investimento de R$ 10 milhões seria redirecionado da CNN News para o novo CNN Money.
A tentativa de virar sócio do CNN Money
Em 18 de setembro de 2024, Vorcaro escreveu: “to entrando na cnn com o rubens menin. Mas cnn precisa aprovar. E eu entrar no conselho”. A ideia era ter assento no conselho editorial e participar da escolha de conteúdo.
A proposta formal previa cobranding em mídia, eventos e outdoors. Cris Moreira, vice-presidente comercial da CNN, chegou a afirmar que o banco havia feito “um primeiro aporte como acionistas”. Vorcaro, no entanto, recuou dias depois citando “ruído grande” e postura de João Camargo. A negociação não teve desfecho claro nas mensagens.
O canal estreou com seis cotistas-fundadores: Itaú Personnalité, Banco Inter, Qualcomm, Claro, Ambipar e, segundo a revista Fórum, o Banco Master. A Ambipar também é investigada pela PF por suspeita de envolvimento nas fraudes do Master.
O desfecho: liquidação e prisão
O Banco Central rejeitou a compra pelo BRB em setembro de 2025. Em novembro, decretou a liquidação extrajudicial do Master. Vorcaro foi preso em março de 2026, em Brasília, após três tentativas frustradas de acordo de delação premiada. Ana Matos deixou o banco em dezembro de 2025.
A CNN Brasil nega que Vorcaro tenha sido sócio. Em nota, a emissora afirma ter único controlador (Rubens Menin), classifica o Master como anunciante comum e garante separação entre comercial e editorial. Executivos da época (Camargo, Moreira) deixaram a empresa em agosto de 2025.
O que observar daqui pra frente
A investigação sobre o Banco Master avança sobre possíveis fraudes contábeis e uso indevido do FGC. A relação entre anunciantes e veículos de comunicação — especialmente a venda de “assentos editoriais” disfarçados de patrocínio — tende a ser escrutinada por reguladores e pelo mercado. Para investidores e empresários, o caso reforça a necessidade de due diligence rigorosa em parceiros financeiros e transparência nas métricas de mídia contratadas.
