Economia

Millennials viraram os donos do dinheiro — e ninguém avisou o mercado

Millennials executivos em reunião de negócios, representando geração que acumula riqueza e poder econômico
A geração millennial agora comanda cargos de liderança e acumula patrimônio em ritmo acelerado.

A geração que supostamente “quebraria a economia” com abacates e cerveja artesanal agora controla cargos de comando, acumula riqueza em ritmo acelerado e está prestes a receber a maior transferência de heranças da história. Os números não deixam dúvida: o estereótipo do millennial endividado e sem perspectivas virou peça de museu.

Um levantamento da The Economist em 32 economias avançadas revela que, em 29 delas, quem tem hoje entre 30 e 45 anos ganha mais — corrigindo a inflação — do que as gerações anteriores na mesma idade. As exceções? Apenas Itália, Grécia e Japão.

Do Occupy Wall Street ao topo das big techs

Há pouco mais de uma década, jovens gregos enfrentavam desemprego acima de 50%. No Reino Unido, salários estagnavam. Movimentos como Occupy Wall Street e o apoio a figuras como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn definiam a narrativa de uma geração excluída.

Hoje, a foto é outra. Um millennial americano tem a mesma probabilidade de ocupar cargo de gestão que um Gen X na mesma idade. Quase um décimo dos bilionários dos EUA nasceu entre 1980 e 1995 — o dobro da fatia da geração anterior em 2011. Nomes como Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Mark Zuckerberg (Meta) colocam a geração no comando da tecnologia mais disruptiva do momento.

Poder político real, não apenas discursos

A presença deixa de ser simbólica para virar decisão de Estado. Millennials governam Hungria, Países Baixos, Arábia Saudita e a cidade de Nova York. No Brasil, o favorito para 2026 tem 45 anos — limite superior da geração. Nos EUA, mercados de apostas dão 50% de chance ao próximo presidente ser millennial (AOC, Jon Ossoff e JD Vance estão na faixa dos 31 a 45 anos).

Duas forças que viraram o jogo

A virada não foi sorte. Dois pilares sustentam o avanço:

  • Mercado de trabalho historicamente forte: a crise de 2008-09 puniu os juniores — últimos a entrar, primeiros a sair. Hoje, o pleno emprego nas economias ricas inverte a equação.
  • Choque demográfico pós-pandemia: baby boomers adiaram aposentadorias após 2008 para recompor poupança. A covid-19 acelerou a saída: só nos EUA, 3 milhões de “aposentados excedentes” deixaram o mercado até fim de 2022. Não há jovens suficientes para preencher as vagas seniores.

Escassez de mão de obra qualificada empurra salários e promoções para quem está no meio da carreira — exatamente onde os millennials estão.

A moradia: atraso fechando rápido

A casa própria era a maior queixa. Aos 30 anos, apenas 40% dos millennials americanos tinham imóvel — bem abaixo do Gen X. Mas aos 40 a taxa empata. No Reino Unido, a diferença de 20 pontos percentuais aos 30 cai pela metade aos 40, segundo o Institute for Fiscal Studies.

Três fatores explicam a recuperação:

  • Renda maior permitiu poupança para entrada;
  • Flexibilização de regras de financiamento imobiliário;
  • Quitação gradual de dívidas estudantis — especialmente entre formados.

Curiosamente, os millennials mais ricos (acima de US$ 200 mil/ano) ainda compram menos imóveis que pares de gerações passadas. O motivo não é dinheiro: é tempo. Casam mais tarde (homens aos 31 anos, contra 27 nos anos 90) e estudam mais. O patrimônio, porém, cresce mais rápido que o das gerações anteriores na mesma idade.

O próximo capítulo: herança e IA

O horizonte reserva dois vetores poderosos. Primeiro, a “grande herança”: bens deixados por falecidos já equivalem a ~10% do PIB anual nas economias ricas. O IFS projeta herança mediana de €136 mil (US$ 180 mil) para nascidos na Inglaterra nos anos 80 — o dobro dos nascidos nos anos 60.

Segundo, a inteligência artificial. Se a IA deslocar empregos de entrada, o peso recairá sobre a Geração Z (nascidos 1997-2012), cujos gestores serão justamente os millennials que hoje decidem investimentos em automação.

O que observar daqui para frente

Para quem decide alocação de capital, contratação ou estratégia de produto: a geração que o mercado tratou como “problema” por uma década agora define agenda. Monitorar padrões de consumo de alto rendimento, preferências de liderança tech e o timing da transferência intergeracional de riqueza deixa de ser opcional — vira variável central de qualquer plano de negócios para os próximos cinco anos.