Economia

Fundos de infra vivem pior mês da história: a armadilha do hedge

Gráfico mostra queda histórica de fundos de infraestrutura hedgeados em setembro
Fundos de infraestrutura hedgeados registram pior mês da história com retornos negativos em setembro.

Os fundos de infraestrutura hedgeados — aqueles que trocam a inflação pelo CDI — acabam de registrar um dos piores meses de sua história, com a maioria entregando retorno negativo em setembro. A mediana dos prêmios das debêntures incentivadas saltou 0,40 ponto percentual, e a reação em cadeia ainda não parou.

O resultado assusta quem via esses fundos como uma “LCI turbinada”: isenção de IR, cota estável e resgate rápido. A realidade de setembro mostrou que a estrutura tem um ponto de ruptura.

O choque de setembro e a fuga de capital

Segundo o Bradesco BBI, a categoria sofreu saídas líquidas de R$ 3,6 bilhões no mês, ante R$ 2,6 bilhões em agosto. Foi o terceiro mês consecutivo de performance abaixo do CDI e o sétimo seguido de resgates — desde março, só entram pedidos de saída, com pico de R$ 11,6 bilhões em maio.

Para Thais Prado, head de crédito do ASA, o movimento ganhou fôlego em outubro: “Vemos fundos com rendimento negativo e os resgates acelerando novamente”. A tabela abaixo resume o drama dos principais tickers no nono mês do ano:

  • PRIF11: -5,47% (ano: +6,03%)
  • RBIF11: -5,39% (ano: -6,13%)
  • BINC11: -4,70% (ano: +8,61%)
  • IFRI11: -2,61% (ano: +4,14%)
  • JURO11: +0,18% (ano: -0,40%)
  • XPID11: +0,19% (ano: +16,26%)
  • DIVS11: +5,85% (ano: +8,29%)

Fonte: Economatica. Retornos ajustados por proventos.

Por que o “LCI isento” virou pesadelo

Cerca de 70% dos fundos isentos usam hedge, estima Thais Prado. A estratégia elimina a oscilação da taxa de juros, mas expõe o cotista integralmente ao risco de spread — o prêmio que a debênture paga acima do título público.

Quando a crise da Raízen estourou, o investidor pessoa física “colocou o pé no freio”, nas palavras da gestora. Bastou uma alteração relativamente pequena no fluxo para abrir os spreads em 40 pontos-base. “O ponto não é que abriram 40 bps. É que precisou de pouco fluxo para isso”, resume a carta da Sparta.

Dados da Anbima confirmam o descasamento: fundos de renda fixa com mais de metade da carteira em crédito privado renderam 5,6% de janeiro a agosto, enquanto o CDI entregou 9,3% no mesmo período.

A mecânica perversa dos resgates forçados

Diferente de fundos bancários, que carregam LFTs e CDBs vencendo todo dia, os FI-Infra precisam manter no mínimo 85% do patrimônio em ativos incentivados. Na hora do resgate, o gestor é obrigado a vender debêntures.

O problema: vende-se primeiro o que tem liquidez — os papéis melhores. Sobra no fundo a parcela mais arriscada ou ilíquida, concentrando o risco em poucos emissores. Gestoras com produto único ficam ainda mais expostas a essa dinâmica.

Nos fundos fechados de bolsa (como JURO11, XPID11), não há resgate, mas a marcação a mercado bate na cota e nos rendimentos. O JURO11, da Sparta, cortou a distribuição de R$ 1,00 para R$ 0,75 por cota referente a setembro.

Inflação x CDI: quem ganhou e quem perdeu

A queda dos juros reais após o primeiro turno piorou o cenário para os hedgeados. Com o fechamento das NTN-Bs, os spreads de crédito abrem para compensar. Pelo BBI, o prêmio das incentivadas AAA subiu 0,52 ponto em 30 dias, maior nível desde o fim de 2024.

Há um efeito extra: quando os juros reais caem, fundos hedgeados podem ter que desembolsar caixa nos derivativos. Em mercado pressionado, isso força venda adicional de debêntures.

O resultado prático: o FI-Infra atrelado à inflação da Sparta subiu 1,1% em setembro, enquanto o hedgeado da mesma casa caiu 0,2%. Por isso, a gestora declara preferência hoje pelas estratégias indexadas ao IPCA.

O que os gestores sinalizam para os próximos meses

O consenso não existe — e isso já é uma informação.

  • Thais Prado (ASA): “Ainda não é a hora”. Carrego atual perto de 93% do CDI não compensa frente a LCI/LCA. O gatilho de entrada seria um carrego acima de 110% do CDI.
  • Sparta: A correção criou oportunidades e prêmios não devem cair tão cedo. Mas mantém caixa elevado: “Se resgates acelerarem, não queremos ser vendedores forçados”.
  • Vinland: Não há piora de crédito fundamental. Prêmios no maior nível desde julho de 2024 abrem janela de entrada.

Para Thais, a saída de dinheiro deve continuar: “Está todo mundo olhando para a bolsa, mas o dinheiro tem que sair de algum lugar”. A Santander Asset corrobora: o secundário perdeu dinamismo e a captação de fundos de crédito voltou ao negativo em setembro.

O que observar daqui para frente

O equilíbrio do mercado depende agora da volta dos fundos de crédito não isentos e das tesourarias de bancos — a pessoa física sozinha não sustenta a demanda. O termômetro prático é o carrego dos fundos hedgeados: enquanto estiver abaixo de 110% do CDI, a assimetria risco-retorno segue desfavorável frente a alternativas isentas com liquidez real. Acompanhe também o ritmo dos resgates semanais da Anbima; uma aceleração acima de R$ 4 bilhões/mês pode forçar novas quedas de cota mesmo nos fundos mais conservadores.