Justiça

O segredo que ninguém conta: homem viaja 2 mil km por IA e…

Homem sentado em ponto de ônibus vazio olhando celular decepcionado após golpe de perfil falso
Edimar Martins aguarda em vão no ponto de ônibus após viajar 2.000 km para encontro com perfil falso.

O criador do perfil falso que levou um maranhense a cruzar o país de ônibus admitiu: o objetivo era apenas vender produtos como afiliado. A “viúva rica” que prometia bancar o pretendente nunca existiu fora do código. Mas a repercussão colocou o autor em uma posição delicada com a justiça.

Edimar Rocha Martins, 49 anos, gastou economias e dias de viagem para encontrar “Jessica Oliveira” em Belo Horizonte. Ele encontrou apenas um ponto de ônibus vazio. A personagem, no entanto, acumulava mais de 300 mil seguidores no TikTok antes de a conta ser derrubada.

O modelo de negócio por trás da “paixão”

Em depoimento anônimo, o administrador da conta explicou a mecânica: a inteligência artificial servia como isca visual para construir audiência rápida. Com o público cativo, a estratégia era migrar o conteúdo para links de afiliados no TikTok Shop e Mercado Livre.

Nunca houve conversa privada com a vítima, segundo o criador. Os vídeos com frases como “minha fazenda vai ser sua” ou “eu quero te bancar” eram roteirizados apenas para reter atenção — o chamado engagement bait. O problema é que a linha entre “gancho de marketing” e “falso testemunho” desapareceu para quem assistia do outro lado da tela.

Por que isso muda o jogo para quem vende online

O caso expõe uma zona cinzenta perigosa para criadores e plataformas. Veja os pontos críticos:

  • Persona como produto: A IA permite escalar “influenciadores” que não dormem, não envelhecem e não erram — até que o roteiro cause danos reais.
  • Responsabilidade difusa: O criador diz que não falou com a vítima; a vítima diz que acreditou nos vídeos. Plataformas como TikTok e Kwai ainda não se pronunciaram sobre a moderação desse conteúdo.
  • Afiliado agressivo: A pressão por comissão rápida incentiva narrativas extremas. “Casamento” e “herança” vendem mais que “desconto no frete”.

O que diz a polícia — e o que ainda não foi decidido

A Polícia Civil de Minas Gerais foi taxativa: criar personagens com IA não é crime. Usá-los para obter vantagem ilícita, causar prejuízo ou praticar estelionato, sim. O artigo 171 do Código Penal (estelionato) e a fraude eletrônica entram em cena se houver prova de induzimento em erro para ganho financeiro.

Até o momento, não há boletim de ocorrência registrado por Edimar. Sem inquérito, não há investigação formal — e o criador segue anônimo, mas com medo de represálias. O delegado responsável destacou que a caracterização do crime depende da “análise dos elementos concretos”. Em resumo: o prejuízo patrimonial da vítima (passagens, hospedagem, tempo) precisa ser vinculado diretamente à conduta dolosa do autor.

Como não cair na próxima “Jessica”

A PCMG divulgou um protocolo prático para relações iniciadas no digital. A regra de ouro: desconfie da intimidade instantânea sem verificação de identidade.

  • Nunca transfira dinheiro ou compre passagens para quem você só conhece por tela.
  • Exija videochamada ao vivo — deepfakes em tempo real ainda têm falhas visíveis (piscar, sincronia labial, bordas do rosto).
  • Faça busca reversa das fotos de perfil (Google Lens, Yandex, TinEye).
  • Não envie documentos, selfies com RG ou dados bancários para desconhecidos.
  • Se algo parecer “bom demais para ser verdade”, guarde prints, links e perfis. Registre BO online ou na delegacia mais próxima.

O que observar daqui para frente

O silêncio das big techs é a variável mais importante. Se TikTok, Kwai e Mercado Livre não criarem selos obrigatórios de “conteúdo sintético” ou auditoria de perfis de alta conversão afiliada, o incentivo financeiro continuará superando o risco reputacional. Para o profissional de negócios, a lição é clara: autenticidade verificável virou ativo competitivo. Quem provar que é “gente de verdade” — com CNPJ, endereço, rosto e voz ao vivo — sai na frente num mercado cada vez mais povoado por avatares perfeitos e promessas vazias.