Economia

O segredo do déficit 2026: projeção salta para R$ 53 bi e dívida assusta

Gráfico de barras mostrando déficit primário projetado de R$ 53 bilhões para 2026 em destaque vermelho
Projeção do déficit primário para 2026 sobe para R$ 53 bilhões segundo relatório Prisma

Economistas consultados pelo Ministério da Fazenda elevaram a estimativa do rombo primário para 2026, contrariando a meta oficial de superávit. A divergência abre um abismo entre o discurso fiscal e a realidade projetada pelo mercado.

O relatório Prisma de outubro trouxe a piora: o déficit esperado para o ano que vem subiu para R$ 53,05 bilhões. Ao mesmo tempo, a projeção para 2027 melhorou, caindo para R$ 44 bilhões. Entender essa tesoura é vital para quem precifica risco Brasil.

O tamanho do buraco em 2026

A mediana das expectativas para o déficit primário do governo central no próximo ano avançou de R$ 52,27 bi para R$ 53,05 bi em apenas um mês. Parece pouco, mas a direção preocupa: a meta oficial prevê superávit de R$ 34,3 bilhões (0,25% do PIB), com banda de tolerância de 0,25 ponto percentual.

Na prática, o mercado aposta que o governo fechará 2026 no vermelho, longe da meta. Para 2027, o cenário inverte: a estimativa de déficit recuou de R$ 45,35 bi para R$ 44 bi, ainda distante do superávit de R$ 73,2 bi (0,5% do PIB) almejado pela equipe econômica.

Dívida bruta: a escalada silenciosa

O endividamento bruto segue como o termômetro mais sensível. A projeção para 2026 subiu de 83,2% para 83,4% do PIB. Para 2027, o indicador estaciona em 87% do PIB — patamar que reforça a vulnerabilidade fiscal diante de choques externos.

A equipe econômica atribui a pressão ao juro alto. A Selic a 13,75% ao ano, mesmo após cinco cortes de 0,25 ponto, mantém o custo da dívida elevado. O Banco Central não sinalizou os próximos passos para a reunião de novembro, o que mantém a curva de juros longa pressionada.

Receita estagnada, despesa resistente

O Prisma revela a raiz aritmética do problema. A receita líquida esperada para 2024 travou em R$ 2,58 trilhões. Para 2027, a projeção mal se move: R$ 2,75 trilhões. Do lado do gasto, a rigidez domina:

  • Despesas 2024: R$ 2,63 trilhões (inalterado);
  • Despesas 2027: R$ 2,79 trilhões (ligeira alta).

Sem espaço para cortar obrigatórias e com receita dependente de medidas incertas, o ajuste necessário para atingir as metas torna-se cada vez mais improvável no horizonte próximo.

O que separa 2026 de 2027?

A melhora marginal na projeção de 2027 não reflete otimismo estrutural. Analistas veem o número como resultado de uma base de comparação mais baixa e da expectativa — ainda não confirmada — de que o ciclo de cortes da Selic reduza o custo da dívida no ano seguinte.

Mas o efeito mais relevante aparece na dinâmica da dívida: o salto para 87% do PIB em 2027 sinaliza que, mesmo com déficits menores, a trajetória segue explosiva se o crescimento nominal do PIB não acelerar.

O radar para as próximas semanas

A reunião do Copom em novembro é o evento binário. Uma pausa nos cortes ou uma sinalização de alta faria as projeções de dívida para 2026/27 piorarem instantaneamente. Do lado fiscal, a execução do arcabouço e a capacidade de entrega de receitas extras (como a taxação de fundos exclusivos e offshores) ditarão se o mercado continua a “chutar” a meta para frente.

Para o investidor e o gestor de caixa, a lição é clara: planeje cenários com déficit primário efetivo em 2026 e dívida/PIB acima de 85% no biênio. A surpresa, se houver, virá do lado da receita — e ela tem decepcionado consistentemente.