Economia

Brasil vira nº 1 do sorgo mundial: o que muda na safra 2026/27

Plantação de sorgo no Brasil, safra recorde 2026/27, liderança mundial
Brasil torna-se maior produtor mundial de sorgo na safra 2026/27, superando os EUA.

A Conab projeta que o Brasil assumirá a liderança global na produção de sorgo já na safra 2026/27, superando os Estados Unidos pela primeira vez na história. O marco chega em um ano marcado pelo El Niño, que deve castigar o Sul com chuvas excessivas e secar o Centro-Oeste e o Nordeste. Ainda assim, a estimativa é de 367,1 milhões de toneladas de grãos no total, novo recorde nacional.

O número esconde uma reorganização silenciosa no mapa agrícola. Enquanto soja e milho avançam, arroz e trigo recuam para patamares mínimos. A pergunta que fica: até onde a aposta no sorgo — cultura mais rústica e tolerante à seca — pode compensar as perdas nas commodities tradicionais?

O salto do sorgo: 8 milhões de toneladas e a dianteira sobre os EUA

Segundo a Conab, a safra brasileira de sorgo deve atingir 8 milhões de toneladas. O Wasde/USDA projeta 7,3 milhões para os americanos no mesmo período. A virada não é acidente: a expansão de área no Centro-Oeste e no Sul coincide com a abertura de mercado na China, que passou a importar volumes crescentes do grão brasileiro.

A cultura ganhou espaço justamente por exigir menos água e suportar temperaturas mais altas — vantagem decisiva em anos de El Niño. O movimento reflete uma adaptação climática forçada, não apenas uma escolha comercial.

Soja: recorde de 182 mi t, mas expansão desacelera

A oleaginosa mantém a hegemonia. A área semeada sobe para 49,3 milhões de hectares (+1,4%), puxada pelo Norte (+5,7%) e Nordeste (+2,9%). Sul e Centro-Oeste mostram estabilidade, sinal de que as fronteiras agrícolas tradicionais estão próximas do teto.

A produção estimada de 182 milhões de toneladas seria a maior da série histórica. O crescimento, porém, ocorre em ritmo bem inferior ao das duas últimas décadas.

Milho: verão no Sul volta a crescer após 13 anos

A área total de milho chega a 23,7 milhões de hectares. O destaque é a safra de verão no Sul: +11% de área, projetando 32 milhões de toneladas. O movimento não ocorria desde 2012/13 e reflete a busca por alternativas diante da quebra do trigo.

  • Safra verão (Sul): 32 milhões de t
  • Segunda safra: 113,3 milhões de t (área de 18,5 mi ha, +4%)
  • Total milho 2026/27: 148 milhões de t — novo recorde se confirmado

O risco concentra-se na segunda safra, ainda dependente do calendário da soja e da intensidade do El Niño no outono.

Arroz e trigo: o lado invisível da conta

O arroz repete a área de 1,53 milhão de hectares — um dos menores patamares da história. O Sul plantará apenas 1 milhão de hectares. Com a produção caindo de 12,8 mi t (2025) para 10,7 mi t (2027), os estoques de passagem devem fechar em 1,4 milhão de toneladas, o menor nível em três anos.

No trigo, o cenário é mais duro. A safra em andamento rende 5,75 milhões de toneladas (-27% vs. 2025), menor volume desde 2020. Área semeada recuou 21%, para 1,93 milhão de hectares. Com consumo nacional de 12 milhões de toneladas, a Conab projeta importações de 7,1 milhões — dependência externa máxima.

O que observar nos próximos meses

A definição da área de trigo em 2027 dependerá dos preços internacionais, que subiram em setembro com quebras em exportadores-chave. No milho segunda safra, o termômetro será o ritmo de colheita da soja entre janeiro e março. Já no sorgo, a consolidação da liderança exige que a logística de escoamento e a demanda chinesa mantenham o ritmo — dois fatores que não dependem apenas do clima.

Para o produtor e o investidor, a leitura é clara: a safra 2026/27 será de recordes totais, mas com riscos concentrados nas culturas de inverno e na dependência externa de trigo. A diversificação forçada pelo clima já redesenhou o mapa — e o sorgo é, por enquanto, o maior vencedor dessa nova geometria.