Saúde

Canetinhas emagrecedoras: 87% dos médicos indicam, mas o custo barra 65%

Canetas injetoras GLP-1 para tratamento de obesidade sobre balança e receituário médico
87% dos médicos indicam canetas GLP-1, mas 65% dos pacientes não conseguem custear o tratamento contínuo

As canetas à base de GLP-1 tornaram-se a primeira opção terapêutica para 87% dos médicos que tratam obesidade, segundo levantamento da Brace Pharma divulgado nesta quinta-feira (15). O dado sinaliza uma mudança definitiva no protocolo clínico, mas esconde um abismo entre a prescrição e a continuidade do tratamento. A maioria dos pacientes simplesmente não consegue pagar a conta.

O consenso entre especialistas

O estudo, conduzido pelo Ipsos com 200 médicos e 1.000 pacientes, revela uma adesão quase unânime nas três especialidades que mais atendem o público metabólico. Entre endocrinologistas, cardiologistas e clínicos gerais, 95% citam a classe GLP-1 como escolha inicial.

Para Marcelo Neri, diretor executivo do Grupo EMS, o resultado confirma a consolidação dessa classe na prática dos especialistas. O diferencial atual, explica, é a existência de uma opção capaz de atuar de forma integrada sobre múltiplos fatores metabólicos, respeitando as necessidades individuais de cada paciente.

Pacientes querem tratar, mas o bolso trava

A intenção de uso explode nas pesquisas: 68% dos ouvidos dizem pretender iniciar a medicação, enquanto 8% já fazem ou fizeram uso. O entusiasmo, porém, esbarra na realidade financeira.

  • 65% dos pacientes não conseguem manter a dosagem ou dar continuidade ao tratamento por falta de recursos.
  • Apenas 28% do público apto à terapia consegue arcar com o custo contínuo, na avaliação dos próprios médicos.

Essa discrepância transforma o acesso em gargalo crítico para a indústria e para os sistemas de saúde, públicos e privados.

O mercado paralelo e os riscos invisíveis

O alto preço impulsiona uma economia paralela perigosa. O monitoramento de redes sociais (Brandwatch) aponta que 91,4% das menções sobre as canetas envolvem compra sem receita ou buscas por acesso alternativo ao medicamento.

A endocrinologista Deborah Beranger alerta que o uso intermitente e sem supervisão desencadeia o “efeito sanfona”. “Para o corpo, é muito pior você ficar reganhando do que você não perder peso”, resume. Entre os eventos adversos frequentes estão vômitos, diarreia e constipação; casos graves incluem obstrução intestinal e laceração esofágica por vômito intenso.

A Anvisa reforça: produtos não avaliados pela agência apresentam riscos desconhecidos, e o comércio ilegal de injetáveis configura crime no Código Penal brasileiro.

O que observar daqui para frente

O cenário aponta para expansão contínua. Já são 21 medicamentos injetáveis e orais à base de GLP-1 registrados no Brasil — leque aberto após a chegada de Mounjaro e Ozempic. Nas redes, as menções à classe cresceram 86% na comparação entre os últimos semestres analisados.

Para investidores e gestores de saúde, o sinal é claro: a demanda clínica está estabelecida e a pipeline de produtos, robusta. A variável decisiva para o próximo ciclo não é a eficácia, mas a estruturação de modelos de acesso sustentáveis — seja via incorporação em rol de procedimentos, programas de adesão da indústria ou novas apresentações de menor custo. Quem resolver a equação financeira capturará o valor real desse mercado.