Saúde

Colapso na Santa Casa: O prazo fatal de 45 dias que ninguém esperava

Fachada da Santa Casa de Campo Grande com símbolo médico e texto sobre crise anestesiologia 45 dias
Santa Casa de Campo Grande enfrenta risco de paralisação cirúrgica após saída de anestesiologistas.

Um juiz obrigou duas empresas de anestesiologia a continuar atendendo na Santa Casa de Campo Grande por mais 45 dias, mesmo após ambas anunciarem a saída por falta de pagamento. A decisão evita o fechamento imediato de salas de cirurgia, mas expõe um dilema: o novo gestor tem a missão de cortar 20% da folha CLT enquanto tenta renegociar dívidas milionárias com pessoas jurídicas.

O prazo vence no fim de novembro. Se não houver acordo ou substituição à altura, o maior hospital de Mato Grosso do Sul ficará sem cobertura anestésica mínima.

A dívida que detonou a crise

O estopim foi a recusa da Servan Anestesiologia em aceitar o parcelamento proposto pela antiga gestão. A dívida acumulada chega a R$ 2,3 milhões, referente a quatro meses de atraso. A contraproposta previa dois pagamentos: um no fim de setembro e outro no início de outubro.

A empresa não topou. Notificou a saída para 1º de novembro. A Sedar, segunda prestadora do serviço, seguiu o mesmo caminho, alegando não ter quadro suficiente para absorver a demanda sozinha sem colocar a segurança dos pacientes em risco.

  • Valor médio mensal (junho): R$ 278,3 mil
  • Valor médio mensal (agosto): R$ 786,7 mil
  • Variação: Quase 3x a mais em dois meses

O pagamento é variável, atrelado ao volume de procedimentos. Isso torna o planejamento financeiro da instituição ainda mais instável.

O risco real: paralisação de cirurgias e exames

Não são apenas os anestesistas. Cirurgiões cardíacos pediátricos também pediram desligamento no início de setembro. Juntos, os dois grupos sustentam a operação de alta complexidade do hospital.

Sem anestesia, não há cirurgia eletiva, nem emergência, nem exames de imagem que exigem sedação. O Sindicato dos Médicos (Sinmed-MS) aponta que a falta de insumos básicos — fios, gazes, medicamentos — era tão grave quanto os salários atrasados.

O Ministério Público entrou com ação civil pública. O juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, deferiu a liminar.

A missão impossível do novo gestor

Luiz Alberto Kanamura assumiu em 23 de setembro, nomeado judicialmente após escândalo de corrupção. O mandato inicial é de seis meses. A remuneração fixada: R$ 46.366,19 por mês (total de R$ 278,1 mil no período).

Entre as metas pactuadas com MPMS, Secretaria de Estado de Saúde (SES) e Secretaria Municipal de Saúde (Sesau):

  • Reduzir a folha CLT em 20% (hoje em ~R$ 16 milhões/mês);
  • Restringir atendimento a alta complexidade: cardiopatias, neurologia, queimados;
  • Manter a escala mínima de 14 anestesistas (dia) e 8 (noite/fins de semana).

O corte não atinge os contratos PJ — justamente onde está a dívida maior. A equação, portanto, aperta o quadro estatutário sem resolver o passivo que fez os especialistas ameaçarem sair.

O que a Justiça exigiu para manter a porta aberta

A decisão judicial funciona como uma ponte temporária. O prazo de 45 dias corridos serve para que Kanamura:

  1. Negocie a permanência da Servan e da Sedar;
  2. Ou contrate substitutos (provavelmente de outros estados, dada a concentração de mercado local);
  3. Estruture escalas, responsabilidades técnicas e integração da nova equipe.

O magistrado foi claro: a substituição imediata “não pode ser implementada de forma instantânea sem risco à continuidade e à segurança da assistência”.

O que observar daqui para frente

O relógio corre até o fim de novembro. Três variáveis definirão se o hospital evita o colapso assistencial:

  • Capacidade de caixa para honrar o parcelamento rejeitado ou apresentar proposta viável às PJs;
  • Velocidade de contratação de anestesistas externos, caso a negociação falhe;
  • Impacto do corte de 20% na folha CLT sobre a operação diária — enfermagem, técnicos, administrativo.

A transição para porta de entrada exclusiva de alta complexidade deve desafogar o pronto-socorro, mas reduz a receita de procedimentos de média complexidade que ajudam a compor o orçamento. O próximo mês dirá se a intervenção judicial foi remédio ou apenas morfina.