As maiores produtoras de salmão da Europa começaram a substituir farinha de peixe por subprodutos de frango na ração — e a conta não fecha só no custo. A farinha de aves custa menos da metade por tonelada, enquanto o preço da farinha de peixe quase dobrou em dois anos. Mas o verdadeiro gatilho foi a escassez: a pesca de anchovas no Peru, responsável por 20% da farinha global, colapsou com o El Niño deste ano.
Durante uma década, supermercados britânicos vetaram a prática temendo rejeição do consumidor. Agora, Tesco, Sainsbury’s e Asda compram de fornecedores que já usam frango. O que mudou?
O tabu que caiu e os números que explicam
A Lerøy Seafood Group, gigante norueguesa fornecedora da Tesco, confirmou ao Financial Times que usa subprodutos de frango em todas suas fazendas em alto-mar. A Mowi, maior do mundo, planeja introduzir a ração à base de aves na Noruega e Escócia. Grieg Seafood começou em julho; SalMar testou em março.
Em 2013, o Reino Unido liberou o uso de proteínas animais processadas na aquicultura — a proibição existia desde o surto da “vaca louca”. Mas o varejo manteve restrições voluntárias até agora.
- Farinha de peixe: preço quase dobrou em 2 anos (estoques em queda + demanda da China)
- Farinha de aves: custa < 50% por tonelada
- Anchova peruana: 20% da produção mundial comprometida pelo El Niño
- Blue whiting (verdinho): perdeu certificação de sustentabilidade este mês por falta de acordo de cotas
O ciclo curioso: frango britânico → Noruega → salmão → Reino Unido
Parte do frango usado pela Lerøy vem do Reino Unido. Subprodutos de granjas britânicas viajam à Noruega para virar ração, alimentam salmões que depois voltam como filé aos supermercados britânicos. Um executivo de grande fabricante de ração resume: “Salmões são carnívoros. Na natureza comem peixes. Frango é perfeitamente natural.”
Mas “natural” não convence todo mundo. Estudo de 2026 do instituto Nofima mostrou que consumidores do Reino Unido e França acham a prática “antinatural e repugnante”. E não há obrigação legal de informar na embalagem.
Varejo divide-se entre silêncio e restrições de marca própria
Em 2021, a Tesco proibia farinha de aves na ração. Em 2024, a Waitrose vedava proteínas animais processadas. Hoje, a Tesco não comenta; a Waitrose recusa-se a falar. A Sainsbury’s proíbe ingredientes de aves na ração de salmão de marca própria, mas não esclarece se a regra vale para marcas de terceiros. A Asda não respondeu.
Jim Bligh, do British Retail Consortium, diz que varejistas buscam rações “mais sustentáveis, considerando impacto ambiental e alternativas que reduzam pressão sobre peixes selvagens”. Justine Butler, da Viva!, contrapõe: consumidores que evitam frango por bem-estar animal ou meio ambiente “podem razoavelmente esperar ser informados”.
Ganhos para a indústria de frango e o que observar
Alistair Collins, da processadora JG Pears, confirma: “A aquicultura se tornou um mercado importante” — a demanda eleva o valor dos restos de frango (ossos, fígado, cérebro; penas ficam fora). No Chile e Canadá, a prática é padrão há anos. A Europa chegou tarde.
Stein Alexander Aukner, do DNB Carnegie, aponta a vantagem estrutural: “O mercado de frango cresce acompanhando o consumo, enquanto capturas de peixes selvagens estão estáveis desde os anos 1980.” Jørgen Skeide, gerente de ração da Lerøy, resume a decisão: “Precisávamos de alternativa à farinha de peixe. Farinha de aves era a única que atendia a todos os requisitos.”
O que observar daqui pra frente
Três frentes merecem atenção: (1) se varejistas britânicos tornarão pública a política de ração — hoje opaca; (2) se a pressão por rotulagem obrigatória de ingredientes da ração ganha força no Parlamento europeu; (3) se a dependência de frango cria novo risco de concentração de fornecimento, agora que a avicultura vira “poço de proteína” da aquicultura. O salmão no prato pode não ter mudado de sabor. A cadeia por trás dele, sim.
