Economia

Dólar salta para R$ 5,05 e Bolsa recua: o que está por trás do “efeito Flávio-Lula” e do fim da escala 6×1

Gráfico financeiro mostra dólar a R$ 5,05 e Ibovespa em queda de 0,34% no Brasil
Dólar sobe para R$ 5,05 e Bolsa recua com tensões políticas e trabalhistas domésticas

O Ibovespa inverteu a rota e o dólar disparou contra a tendência global nesta quinta-feira (15). Dois gatilhos domésticos explicam o movimento: uma pesquisa eleitoral que embolou 2026 e o avanço de uma proposta trabalhista que promete mexer no bolso das empresas.

Às 13h48, o principal índice da B3 caía 0,34%, aos 205.798 pontos, após abrir em queda mais forte. Paralelamente, a moeda americana subia 0,50%, cotada a R$ 5,055, enquanto o DXY — termômetro do dólar no exterior — recuava 0,44%.

O empate que assusta o mercado

A nova pesquisa Quaest, divulgada na véspera, colocou Flávio Bolsonaro (PL) com 46% das intenções de voto contra 44% de Lula (PT) — empate técnico dentro da margem de dois pontos. Brancos e nulos somam 9%.

Para Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos, a combinação de incerteza eleitoral com pressão de custos tende a penalizar ativos brasileiros. O mercado enxerga na eventual vitória de Flávio um sinal de maior compromisso com o ajuste fiscal.

Gabriel Mota, da Manchester Investimentos, adiciona que a pesquisa desencadeou realização de lucros após a valorização recente de papéis sensíveis à troca de governo. “O investidor antecipou um cenário e agora ajusta as posições”, resume.

Fim da escala 6×1: a conta que chega na inflação

O Senado avançou com a proposta que extingue a jornada 6×1 (seis dias de trabalho para um de folga). O tema reacendeu o debate sobre custos trabalhistas, produtividade e impactos fiscais.

Um estudo da Warren Investimentos estima que a redução da semana de 44 para 40 horas — sem corte proporcional de salários — elevaria o IPCA entre 0,38 e 0,42 ponto percentual ao longo da implementação. O custo-hora sobe e parte da conta migra para os preços.

Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil, alerta: somada à indefinição eleitoral, a discussão trabalhista injeta volatilidade extra nos ativos locais.

Varejo fraco lá fora, varejo fraco aqui dentro

O cenário externo não ajuda. O PPI (índice de preços ao produtor) dos EUA saltou 1,3% em setembro — o triplo do esperado (0,5%) e maior alta mensal desde março de 2022. Em 12 meses, acumula 6,3%. O núcleo, sem alimentos e energia, subiu 0,7% no mês (projeção: 0,3%).

“A energia puxa, mas o núcleo acima da projeção mostra que a pressão não é só combustível”, diz Vitor Kayo, da Nomad. O dado reforça a narrativa de juros altos por mais tempo nos EUA.

No Brasil, o IBGE frustrou: vendas no varejo cresceram apenas 0,1% em agosto ante julho (expectativa: 0,7%) e 0,4% em um ano (projeção: 1,45%).

Juros futuros sobem; Petrobras pesa; Magalu respira

Os contratos de DI para jan/28 subiram a 12,830% (+0,12 pp) e para jan/35 a 12,745% (+0,13 pp). Movimento oposto aos Treasuries de 10 e 30 anos, que caíram cerca de 1,8%.

Petrobras recua mesmo com o Brent estável a US$ 106,04. Já Magazine Luiza inverteu a queda da véspera (-4,48%) e subia 2,30% às 13h50. Thiago Valencia, da Valor Investimentos, cita relatório otimista do JPMorgan para varejo e saúde, mas pondera: “ainda é cedo para cravar o driver”.

O que observar nas próximas sessões

A agenda segue carregada: sabatina de Lula na Globo, nova pesquisa Datafolha e desdobramentos da proposta trabalhista no Congresso. No exterior, o CPI americano de setembro e falas de dirigentes do Fed ditam o ritmo.

Para quem gere posições no Brasil, a equação tem três variáveis: probabilidade eleitoral, custo da jornada reduzida e trajetória dos juros globais. Qualquer movimento brusco em uma delas reprecifica a outra. Mantenha stop curto e exposição dimensionada à volatilidade.