Economia

O segredo que ninguém conta: biotechs levantam milhões pulando o IPO tradicional

Gráfico mostra biotechs optando por fusão reversa (SPAC) em vez de IPO tradicional na bolsa
23 biotechs já escolheram fusão reversa para estrear na Bolsa em 2024, quase 6x o volume de 2023

Vinte e três startups de biotecnologia já escolheram o atalho da fusão reversa para estrear na Bolsa só este ano — quase seis vezes o volume de 2023. O movimento chama atenção porque o mercado de IPOs tradicionais também voltou a aquecer. O que está fazendo o capital mais sofisticado migrar para essa rota alternativa?

O tsunami de “cascas vazias” deixado pela pandemia

A explicação começa no passado recente. Entre 2020 e 2021, a euforia com ciências da vida colocou 121 empresas na Bolsa, segundo a FactSet. Muitas fracassaram nos testes clínicos e viraram “casca” — estruturas listadas, sem produto viável, mas com o registro ativo.

Esse estoque de alvos baratos coincidiu com a chegada de fundos especializados dispostos a bancar a transação. Nomes como Fairmount, RTW Investments, Bain Capital Life Sciences e Atlas Venture agora assinam cheques de centenas de milhões para fechar esses negócios.

Dinheiro grosso legitimou o atalho

“Historicamente, abrir capital por fusão reversa era visto como opção inferior”, admite Brian Rosenzweig, sócio da Covington. “Mas o mercado se sofisticou. Os mesmos investidores que movem os livros dos IPOs tradicionais hoje financiam as fusões reversas.”

A presença desse capital “smart money” varreu o estigma de último recurso. Prova disso são os volumes captados nas últimas semanas:

  • Korsana Biosciences fundiu-se à Cyclerion Therapeutics com US$ 380 milhões garantidos (Fairmount, RTW).
  • Caldera Therapeutics levou US$ 278 milhões para unir-se à Synlogic (Bain, Atlas, Janus Henderson).
  • Obsidian Therapeutics fechou US$ 350 milhões na combinação com a Galera (Atlas, Janus Henderson).

Certeza de valuation vs. roleta da janela de IPO

Para advogados e CEOs, a vantagem decisiva não é só velocidade — é previsibilidade. No IPO tradicional, a precificação depende do humor do mercado no dia do pricing. Na fusão reversa, a avaliação e o caixa entram travados no contrato.

“No momento em que assina o business combination agreement com o financiamento garantido, você tem certeza do negócio”, explica Rita Sobral, sócia da Cooley. “Você elimina o risco de a janela de IPO fechar na sua cara e foca em fixar o valuation antecipadamente.”

Jonathan Violin, CEO da Korsana, resume a mudança de mentalidade: “A visão pejorativa antiga foi um erro. O que importa é a solidez da ciência e o caixa na conta, não o caminho burocrático escolhido.”

O IPO tradicional não morreu — e isso importa

Apesar do boom das fusões reversas, a via clássica segue viva. A Alamar Biosciences, por exemplo, estreou em abril via IPO padrão e viu as ações subirem cerca de 15% desde então. A coexistência das duas rotas cria um cenário raro: o fundador passa a ter deal choice real.

Empresas com dados clínicos robustos e narrativa de crescimento longo ainda preferem o IPO para maximizar visibilidade e base acionária ampla. Já quem precisa de caixa imediato, controle de valuation ou tem ativos em estágio mais arriscado encontra na fusão reversa uma engenharia financeira sob medida.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se a tendência se sustenta ou arrefece: o apetite dos fundos crossover por alocar em PIPEs de fusões reversas, a tolerância regulatória da SEC com divulgações dessas operações e a performance pós-listagem das empresas que escolheram o atalho. Se os retornos decepcionarem, o capital sofisticado — que dita a moda — pode virar as costas tão rápido quanto chegou.