Uma fila que dobrou dez quarteirões sob chuva e frio para disputar 30 posições em um bazar de Moreno, na Grande Buenos Aires, expõe a gravidade do desemprego na Argentina. A cena, registrada na seleção da rede CityStore, não é um fato isolado — é um termômetro.
O que leva centenas de pessoas a dormir na calçada para entregar um currículo sem sequer saber o salário? A resposta está nos números que o governo não consegue esconder.
O que aconteceu nas ruas de Moreno
O anúncio prometia receber currículos até as 16h para vagas de reposição, depósito e administração. Os portões fecharam às 17h, com a fila ainda dobrando a esquina. Recrutadores desceram à calçada para recolher os documentos de quem ficou de fora.
Muitos candidatos esperavam entrevistas presenciais. Saíram apenas com a promessa de um eventual telefonema. Não houve detalhes sobre remuneração, benefícios ou jornada.
- 30 vagas anunciadas pela CityStore
- Mais de 10 quarteirões de extensão da fila
- Horas de espera sob chuva e temperaturas baixas
- Pessoas acampadas desde a madrugada
Perfis que não cabem nas estatísticas oficiais
Gabriela, 50 anos, viajou da cidade vizinha de Merlo. Seu último vínculo formal foi em 2023, num quiosque que fechou quando foi vendido. Desde então, mais de um ano sem carteira assinada. Ela precisa completar contribuições previdenciárias para se aposentar. O marido sustenta a casa sozinho.
Natalia, 49, estava há quatro meses desempregada. Chegou às 9h, fez amizades na fila, compartilhou angústias. Saiu sem saber se será chamada.
Melissa, 27, perdeu o emprego de cuidadora há três semanas. Mayra, 28, foi demitida de uma lanchonete há um mês. Ambas resumiram: “Sabíamos que seria assim. Não há trabalho.”
O dado que contextualiza a fila
Desde a posse de Javier Milei, 32 mil empresas fecharam as portas na Argentina, segundo levantamento do jornal La Nación. O número não é uma projeção — é o retrato de um tecido produtivo que encolhe em velocidade rara.
O fechamento de empresas retira postos de trabalho formais e empurra trabalhadores para a informalidade ou para o desemprego aberto. A fila de Moreno é a face visível desse processo.
Padrão repetido: o frigorífico de maio
Em maio, a mesma Moreno registrou cena semelhante. Foram 60 vagas no frigorífico Cabaña Don Theo. A fila ultrapassou mil metros. Gente na porta desde as 2h da madrugada. A divulgação nas redes sociais atuou como multiplicador em ambos os casos.
Dois episódios, mesma cidade, mesmo padrão: anúncio modesto, procura massiva. Não é coincidência — é estrutura.
O que isso sinaliza para quem decide capital
Para o investidor ou empresário que olha a Argentina, a fila de Moreno entrega três leituras simultâneas:
- Mão de obra disponível e barata: a oferta de trabalho supera a demanda em múltiplos elevados, pressionando salários para baixo.
- Consumo deprimido: trabalhadores sem renda formal não compram. O varejo sente primeiro.
- Risco social crescente: filas de 10 quarteirões viram manchete, viram pressão política, viram instabilidade.
O cenário não sugere colapso imediato, mas aponta para uma recuperação que, se vier, será desigual e lenta no mercado de trabalho.
O que observar daqui para frente
Três variáveis dirão se o quadro piora ou estabiliza nos próximos trimestres: a taxa de abertura de novas empresas (hoje perto de zero), a evolução do salário real frente à inflação e a resposta do governo a protestos setoriais que já começam a surgir. Enquanto a fila de Moreno não for exceção, o risco-país permanece precificado com prêmio de incerteza elevado.
