A Movida (MOVI3) fechou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 152,1 milhões, um salto de 117% na comparação anual que superou as próprias projeções da gestão. É o resultado trimestral mais forte desde 2020, mas a velocidade da expansão levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do ritmo nos próximos meses.
A receita bruta totalizou R$ 4,18 bilhões, alta de 3,5%. O destaque, porém, fica por conta da divisão de locação, que sozinha entregou R$ 2,7 bilhões — um recorde histórico para a companhia.
O motor por trás do recorde
A performance não veio de uma única alavanca. A locação de veículos (RAC) e a gestão de frotas (GTF) cresceram juntas, impulsionadas por uma diária média mais alta e taxa de utilização pressionada para cima.
Outro ponto crítico: a venda de ativos usados. Com o mercado de seminovos ainda aquecido, a empresa conseguiu margens melhores na renovação da frota, o que alivia a pressão de depreciação no balanço.
- Receita bruta locação (RAC + GTF): R$ 2,7 bi (recorde)
- Receita bruta total: R$ 4,18 bi (+3,5% a/a)
- EBITDA: R$ 1,80 bi (+21,4% a/a)
Rentabilidade operacional em foco
O EBITDA de R$ 1,8 bilhão revela uma expansão de margem que surpreendeu analistas. A companhia conseguiu repassar custos — especialmente manutenção e depreciação — para o cliente final sem perder volume.
Mas o efeito cambial e a rolagem da dívida continuam no radar. A taxa Selic em patamar restritivo encarece o custo de capital justamente no momento em que a Movida acelera investimentos em renovação de frota.
O que os números não mostram
A prévia operacional não passa por auditoria. Isso significa que ajustes contábeis — provisões, impostos diferidos ou marcação a mercado de derivativos — podem mover a linha final do lucro quando o balanço completo for publicado.
Além disso, o guidance batido refere-se a metas internas de volume e receita. A empresa não divulgou projeção oficial de lucro líquido para o ano, o que torna a comparação com “expectativas de mercado” um exercício de estima, não de fato consumado.
Cenários para o quarto trimestre
O último trimestre do ano costuma ser sazonalmente mais forte para locação de curta duração (turismo e fim de ano). Por outro lado, a concessão de crédito ao consumidor dá sinais de aperto, o que pode frear a demanda por aluguel de longo prazo e venda de seminovos.
Três variáveis vão ditar o tom do próximo resultado:
- Comportamento da inadimplência nas carteiras de pessoa física e PJ;
- Preço médio de venda dos seminovos no varejo;
- Trajetória da curva de juros futuros (DI) para 2025.
O que observar daqui para frente
O mercado precificou boa parte da euforia operacional. O teste real virá com a divulgação das demonstrações financeiras auditadas e, principalmente, com a conferência call: a gestão precisará explicar como pretende manter a geração de caixa livre positiva num ciclo de juros altos e frota envelhecendo. Quem busca exposição ao setor deve monitorar o endividamento líquido/EBITDA — a alavancagem ainda é o principal risco não precificado na tese.
