A Argentina cortou pela metade a entrada de novos aposentados no sistema previdenciário em apenas dois anos. O número despencou de 213,9 mil no primeiro semestre de 2024 para 99,6 mil no mesmo período de 2026. A conta chega junto com um detalhe brutal: o benefício mínimo atual mal paga um quarto das necessidades básicas de um idoso.
O modelo virou referência declarada para o debate fiscal no Brasil. A equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) cita o ajuste argentino como “ótimo exemplo” para conter despesas públicas. Mas os números mostram o custo humano por trás da planilha.
O fim da porta de entrada
Até março de 2025, a moratória previdenciária permitia que trabalhadores com idade para se aposentar, mas sem os 30 anos de contribuição exigidos, regularizassem o período faltante. O governo Milei não renovou o mecanismo. Resultado: 114,3 mil pessoas a menos conseguiram acessar o benefício na comparação entre os dois primeiros semestres.
A queda de 53% consta nos Boletins Estatísticos da Previdência Social (BESS) argentinos. Não há estimativa de quantos desses trabalhadores ficaram sem nenhuma proteção, mas advogados previdenciários relatam filas crescentes em órgãos de assistência social.
Fórmula nova, poder de compra travado
Em março de 2024, o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 274 alterou a regra de reajuste. Antes, a Lei 27.609/2021 misturava 50% da variação salarial com 50% da arrecadação previdenciária. Agora, só a inflação oficial corrige as parcelas mês a mês.
O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) mediu o efeito: em junho de 2026, a aposentadoria mínima sem bônus ficou em 403.327 pesos. Se a fórmula antiga vigorasse, seria 490.621 pesos — diferença de 21,6%.
- Junho/2026 (regra Milei): $403.327
- Junho/2026 (regra anterior projetada): $490.621
- Defasagem real: 21,6%
Para o advogado Luciano González Etkin, especialista em seguridade social, as aposentadorias já perdiam poder aquisitivo desde 2018. “O governo Milei consolida essa perda e a condena a permanecer nesse patamar”, afirmou.
Remédios fora do alcance
Outro golpe veio pelo PAMI, o instituto de saúde dos aposentados. Desde dezembro de 2024, a gratuidade de medicamentos vale só para quem recebe até 1,5 vez o benefício mínimo. Quem ganha um pouco mais paga do bolso — e o bolso está vazio.
Etkin descreve o cenário: “Vivem com cerca de 30% do que seria necessário para um padrão mínimo de dignidade. É uma situação muito preocupante e desumana”. A consequência visível são protestos semanais em frente ao Congresso em Buenos Aires.
Congresso tenta, presidente veta
A pressão legislativa gerou três projetos para recompor benefícios — um em 2024, dois em 2025. Um deles atrelava o piso a 1,09 vez a cesta básica de um adulto. Todos foram vetados integralmente por Milei sob a justificativa de ausência de lastro fiscal.
Em outubro de 2026, o reajuste de 1,66% elevou o mínimo para 505.748,51 pesos (já incluídos 70 mil pesos de bônus fixo). Na cotação do dia, cerca de R$ 1.662. A organização Espaço Gerontovida calcula que um idoso precisa de 2.090.646 pesos mensais para cobrir o básico. O benefício paga 24,1% disso.
O espelho para o Brasil
A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, disse em setembro que o governo argentino é “inspiração” para o “tesouraço” prometido. A desindexação das aposentadorias do salário mínimo — hoje corrigidas com ganho real de até 2,5% acima da inflação — é uma das bandeiras do mercado financeiro brasileiro.
Mas a experiência argentina mostra o que acontece quando o ajuste recai inteiro sobre quem não tem margem de manobra. A pobreza entre idosos, já estrutural, ganhou contornos de emergência humanitária.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o modelo se sustenta ou racha: a capacidade do Estado de conter a pressão social sem reverter vetos; o comportamento da inflação argentina, que corrói o benefício indexado a ela mesma; e a eventual judicialização em massa, já que advogados preparam ações questionando a constitucionalidade da fórmula única. Para investidores e formuladores de política no Brasil, o caso argentino oferece um laboratório real de trade-offs fiscais — com dados, prazos e consequências mensuráveis.
