Os dois principais candidatos à Presidência divergem radicalmente na forma de levar dinheiro privado para o campo, mas nenhum define metas claras de volume ou custo para o produtor. A lacuna deixa o mercado de capitais — CRAs, Fiagros e securitização — sem régua para precificar risco e escalar ofertas.
Enquanto um aposta na reorganização de dívidas e fundos imobiliários da União, o outro prioriza a burocracia zero e títulos verdes. Para o empresário rural, a dúvida prática permanece: qual modelo efetivamente baixa o spread bancário na próxima safra?
Flávio Bolsonaro: securitização sem lastro definido
O programa do candidato do PL coloca a “previsibilidade financeira” como eixo central. A promessa é ampliar o Seguro Rural e criar ferramentas de securitização e reorganização de passivos, dando ao produtor horizonte de planejamento superior a um ano.
Na prática, a securitização transformaria recebíveis do agro em títulos negociáveis, conectando o crédito a investidores institucionais. A reorganização permitiria alongar prazos e ajustar fluxo de caixa às oscilações de commodities e câmbio.
O gargalo: o texto não especifica quais ativos serviriam de lastro (CPRs, duplicatas, contratos futuros?), quais garantias seriam exigidas, nem quem estruturaria as emissões — securitizadoras, bancos ou cooperativas. Também não há meta de emissão ou volume de captação privada alvo.
Infraestrutura via fundo da União: impacto indireto no frete
Fora do capítulo estritamente agrícola, a proposta prevê um fundo lastreado em ativos e imóveis federais, uso intenso de PPPs e concessões, além de BNDES exclusivo para obras nacionais. Rodovias, ferrovias e portos entram no pacote.
Se executado, o modelo reduziria o custo logístico — hoje um dos maiores vilões da margem do produtor. Contudo, não há vinculação obrigatória de recursos ao crédito rural, nem definição de risco entre União e investidor privado.
Lula: mercado de capitais e títulos verdes como vetores
O programa petista assume a continuidade da diversificação de fontes, citando nominalmente CRAs e Fiagros. A diretriz é simplificar o acesso, cortar burocracia e focar financiamento em máquinas, irrigação e tecnologia de precisão.
A menção direta aos instrumentos dá sinal regulatório mais nítido ao mercado. CRAs lastreados em recebíveis e Fiagros multiativos ganham respaldo político para crescer. O texto também acena para títulos verdes, atrelados a critérios ambientais (recuperação de áreas, baixo carbono).
O vazio persiste: não há meta de patrimônio dos Fiagros, volume de CRAs emitidos, nem detalhes de incentivos tributários ou mudanças na CVM/BC para destravar a liquidez secundária.
Seguro catastrófico e gestão de risco sistêmico
Lula propõe, em diálogo com o setor, instrumento para cobrir perdas severas de safra — eventos que quebram a carteira de seguradoras tradicionais. A ideia é integrar seguro, hedge de commodities e proteção financeira em uma única estrutura.
A estratégia casa com expansão de irrigação, agricultura de precisão e monitoramento climático avançado. Novamente, faltam números: qual a subvenção federal prevista? Qual a participação do resseguro internacional?
O que as entidades querem: Lei do Agro 3 e R$ 800 bi em CPRs
CNA e FPA pressionam pela modernização legislativa via “Lei do Agro 3”. O pacote mexe em CPRs, CRAs, Fiagros, registro de garantias e entrada de capital externo. A FPA estima que as mudanças viabilizariam mais de R$ 800 bilhões em CPRs — potencial teórico, não captação garantida.
A Anbima, por sua vez, cobra previsibilidade regulatória, segurança jurídica e menos burocracia no registro de garantias rurais e governança das emissoras. A agenda é transversal, não restrita ao agro.
- CRAs: Lula cita explicitamente; Flávio fala em securitização genérica.
- Fiagros: Nenhum dos dois define metas de patrimônio ou incentivos.
- Crédito privado: Ausência total de metas comparáveis de participação no funding total do agro.
- Custo de captação: Nenhum programa projeta redução de spread ou taxa final ao produtor.
O que observar daqui para frente
O próximo Plano Safra (2026/27) será o termômetro real. Acompanhe: (1) se o Executivo edita MP ou envia PL alterando CPR/CRA/Fiagro antes da safra; (2) se o BNDES lança linha de funding para securitizadoras agro; (3) se a CVM acelera registro de ofertas públicas de Fiagros e CRAs verdes. Quem antecipar esses movimentos captura o prêmio de liquidez antes da manada.
