O banco canadense TD Cowen projeta o Bitcoin a US$ 109 mil ainda este ano, mas alerta: a maior detentora corporativa da criptomoeda pode não acompanhar a alta. A ação da Strategy tem alvo de US$ 260 — 71% acima do fechamento de sexta-feira —, mas a engenharia financeira que impulsionou o papel agora joga contra.
Analistas apontam que a quantidade de Bitcoin por ação tornou-se “menos robusta” após dívidas e preferenciais. Entender esse mecanismo é essencial para quem tem posição ou estuda entrar no papel.
A engenharia que virou jogo contra
Michael Saylor transformou a antiga MicroStrategy em veículo de tesouraria Bitcoin usando títulos conversíveis a juros entre 0% e 2,25% ao ano. Ainda restam US$ 6,7 bilhões desses papéis no mercado, nas mãos de arbitradores que vendiam a ação a descoberto.
Durante o ciclo de alta, a Strategy negociava a 2 ou 3 vezes o valor do Bitcoin em caixa (o NAV). Saylor emitia ações por US$ 2 ou US$ 3 lastreadas em US$ 1 de Bitcoin, aumentando a fatia por ação dos acionistas antigos — a estratégia batizada de BTC Yield.
Mais de cem empresas copiaram o modelo, incluindo Méliuz (CASH3) e OranjeBTC (OBTC3) no Brasil.
O custo das preferenciais e a diluição real
Em 2025, Saylor adicionou camada mais cara: preferenciais STRK, STRF, STRD, STRC e STRE com dividendos de 8% a 12% ao ano. A conta fechava enquanto o Bitcoin subia de US$ 75 mil (abril) para US$ 110 mil (julho).
Depois de quase um ano de lateralização, a pressão apareceu:
- Valor de mercado caiu a 0,63x o NAV em junho — novas emissões viraram dilutivas
- Negócio de software não gerou caixa operacional positivo em 2025
- Em maio, a empresa vendeu 32 BTC para pagar dividendos
- Desde agosto, emite ações ordinárias (MSTR) para recomprar STRC (12% ao ano)
Resultado: o BTC Yield está em -3,7% em 2026, contra +22% em 2025. A companhia dilui acionistas para sustentar a paridade das preferenciais em US$ 100.
O risco das STRC em cenário de queda
Para Guilherme Bandeira, da Solidus Wealth, o maior risco concentra-se nas STRC. “Esse risco tende a se materializar principalmente em cenários de queda acentuada do Bitcoin, como ocorreu no final de junho, quando a confiança dos investidores diminui e a STRC é pressionada abaixo do par.”
Pelos cálculos do Brazil Journal, os dividendos das preferenciais consomem US$ 1,59 bilhão ao ano — parte do upside que iria para a ação ordinária.
Nesta manhã, a Strategy anunciou recompra de US$ 192 milhões em STRCs e compra de 250 Bitcoins, ambas via emissão de ações ordinárias. Nova diluição a caminho.
O precedente que exige cautela
Apostar contra Saylor tem histórico perigoso. Em março de 2000, a ação valia US$ 333 (contra US$ 6 no IPO de 1998). Após questionamentos contábeis, caiu 99,9% para US$ 0,42 em julho de 2002.
O retorno começou em agosto de 2020, com US$ 250 milhões do caixa alocados em Bitcoin. A aposta levou o papel a US$ 543 em novembro de 2024 (base comparável).
O que observar daqui para frente
Três variáveis determinam se a Strategy captura o próximo ciclo ou fica para trás: a trajetória do Bitcoin frente aos US$ 109 mil projetados, a capacidade de sustentar dividendos das preferenciais sem vender reserva, e a disposição do mercado em aceitar novas diluições via emissão de ordinárias. Se o BTC Yield seguir negativo, o desconto sobre o NAV pode se tornar estrutural — e não apenas cíclico.
