Economia

R$ 6 bi em impostos: o segredo por trás da expansão da Havan

Fachada de megaloja Havan com logo verde e amarelo, simbolizando expansão varejista e alta carga tributária
Megalojas Havan impulsionam crescimento de dois dígitos mesmo com tributos equivalentes a 30% do faturamento.

A Havan projeta pagar R$ 6 bilhões em tributos apenas em 2026, valor que supera o lucro líquido esperado e equivale a quase 30% do faturamento bruto da rede. Enquanto o varejo tradicional fecha portas e entra em recuperação judicial, a empresa catarinense acelera: são 15 novas megalojas previstas para este ano e a meta de atingir 200 unidades antes do Natal.

Como um negócio cresce dois dígitos em um ambiente onde a carga tributária consome a margem de lucro? A resposta passa por um modelo operacional que transformou obstáculos burocráticos em vantagem competitiva — e expõe a fratura exposta entre o varejo nacional e a concorrência internacional isenta.

O peso da máquina pública no balanço

Em 2024, o recolhimento foi de R$ 4 bilhões. No ano passado, saltou para R$ 5 bilhões. A projeção atual coloca a conta tributária em patamar recorde, tornando o Estado o maior “sócio” da operação — à frente de fornecedores e do próprio resultado líquido. Para um setor que opera com margem líquida entre 9% e 10%, cada ponto percentual de alíquota decide entre lucro e prejuízo.

Estudos setoriais estimam o novo IVA dual (IBS + CBS) entre 26,5% e 28%, muito acima da média da OCDE (19%) e da União Europeia (21%). A transição começou em agosto de 2026, com a obrigatoriedade de notas fiscais trazendo alíquotas-teste. O varejo de departamentos, intensivo em mão de obra e logística, sente o impacto imediato no caixa.

Burocracia que trava a expansão física

O entrave não é apenas financeiro. Uma única unidade levou 22 anos para reunir todos os alvarás e licenças necessários. Em Matinhos (PR), um terreno de 30 mil m² com projeto de megaloja, cinema e praça de alimentação está paralisado há quatro anos por exigências do Instituto Água e Terra e do Ministério Público local.

Outros exemplos concretos de travamento:

  • Joinville (SC): três projetos não saíram do papel;
  • Natal (RN): inauguração embargada pelo Corpo de Bombeiros na véspera da abertura, em setembro de 2022;
  • São Paulo (capital): maior mercado consumidor do país (quase 12 milhões de habitantes) segue sem nenhuma loja Havan — 36 unidades no estado, todas fora da capital.

“Nosso problema maior não é comprar terreno, não é fazer loja, é o licenciamento em algumas cidades”, resume o fundador em entrevistas recentes.

A assimetria que coloca o varejo nacional na UTI

Em maio de 2026, a MP 1.357 zerou o Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 por pessoas físicas em plataformas estrangeiras. A conta apresentada pela empresa mostra que a carga efetiva sobre a operação nacional pode chegar a 120% quando somados tributos diretos, indiretos e custos de conformidade — contra alíquota zero para o concorrente externo.

O resultado aparece nos números do setor: Casas Bahia negocia dívida de R$ 17,3 bilhões e fechou 298 lojas; Marisa encerrou unidades; Renner e Riachuelo reduziram projeções de crescimento. O volume de pedidos de recuperação judicial no varejo atingiu recorde histórico em 2026.

Contra a maré: expansão com capital próprio

Mesmo nesse cenário, a Havan prevê R$ 1,2 bilhão em investimentos para 15 novas unidades este ano. Relatório do Banco Safra destaca margens acima da média do setor, atribuídas ao mix de produtos (eletro, moda, casa, brinquedos, automotivo) e ao formato de megaloja — que dilui custos fixos por metro quadrado.

A rede nasceu em 1986 numa sala de 45 m² em Brusque (SC). Hoje soma 196 unidades em 23 estados, 22 mil colaboradores e projeção de faturamento de R$ 22 bilhões. A meta declarada é fechar 2026 com 200 megalojas, presença em todos os 27 estados e quadro de 25 mil funcionários.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o modelo se sustenta no médio prazo: a alíquota final do IVA dual (a ser definida por lei complementar até 2027), o desfecho da tributação sobre importados de baixo valor — hoje em discussão no Congresso — e a velocidade dos licenciamentos municipais nas novas praças alvo, prioritariamente no Nordeste e Norte.

A empresa mantém capital fechado, controle familiar e dois dos três filhos do fundador já na operação. A sucessão, contudo, segue tratada com discrição. Enquanto isso, a sala original de 45 m² na avenida Primeiro de Maio, em Brusque, abriga hoje uma nova loja da rede — símbolo de um ciclo que, segundo o próprio empresário, não tem data para parar.