Em setembro, a emissão global de dívida ligada à inteligência artificial caiu para US$ 23 bilhões — menos da metade do mês anterior e um quinto do recorde de junho. O dinheiro barato que alimentou a corrida por data centers e chips simplesmente secou.
O que parecia uma torneira infinita fechou de uma vez. E os sinais de estresse já aparecem nos balanços dos maiores players do setor.
O fim da festa no mercado de títulos
Dados do Morgan Stanley mostram a trajetória: US$ 113 bilhões captados em junho, queda contínua nos meses seguintes e, em setembro, o mercado americano de grau de investimento registrou emissão zero para projetos de IA. Empresas que até semanas atrás colocavam papéis com facilidade agora encontram portas fechadas.
No acumulado do ano, o volume chega a US$ 466 bilhões — contra US$ 101 bilhões no mesmo período de 2023. Foi uma expansão de 360% em doze meses. A velocidade assustou até quem lucrou com ela.
Por que os investidores recuaram
Três fatores convergiram ao mesmo tempo:
- Indigestão: o volume já captado no primeiro semestre saturou carteiras de crédito.
- Ceticismo sobre retorno: prazos de maturação de data centers são longos; a receita, incerta.
- Risco político e operacional: oposição local a data centers por consumo de água e energia cresce nos EUA.
“O financiamento do dia a dia está ficando mais complicado. Todos estão sendo procurados, e todos estão ficando mais rigorosos”, resumiu John Aylward, da Sona Asset Management, em evento do Financial Times em Londres.
O caso Oracle: alerta vermelho
O “Project Jupiter”, campus de data centers da Oracle no Novo México, virou estudo de caso do que pode dar errado. Cerca de US$ 18 bilhões em empréstimos ligados ao projeto enfrentam pressão após a empresa declarar força maior por dificuldade de acesso à eletricidade.
Na última semana, esses papéis eram cotados privadamente a US$ 0,85 por dólar — um desconto de 15% que sinaliza desconfiança real do mercado.
Grandes negócios ainda no pipeline — mas o cenário mudou
Dois pacotes bilionários testam o apetite nos próximos meses:
- US$ 60 bilhões para Broadcom e Anthropic.
- US$ 40 bilhões para a SpaceX comprar chips da Nvidia.
Ambos dependem de distribuição ampla a investidores institucionais. Se a demanda fraquejar, os spreads (prêmios de risco) subirão — encarecendo o custo de capital para todos os hiperescaladores.
O que os fundos de distressed debt estão fazendo
Gestoras especializadas em dívida problemática, como a Polus Capital, permaneceram à margem durante a euforia. Agora, começam a mapear a teia de operações já fechadas — mas ainda sem comprar.
“Não tenho certeza de onde o valor está realmente se acumulando no sistema”, disse Rob Dafforn, CIO da Polus. “O custo de financiamento é alto, e há incerteza sobre prazos e perfis de retorno.”
Uma pausa saudável ou o começo do ajuste?
Para Jordan Rieger, da Monarch Alternative Capital, a desaceleração permite reavaliar estruturas de crédito montadas às pressas. “Muitas vezes, nós nos vemos construindo os trilhos enquanto conduzimos o trem. Esperamos que ele não descarrile antes que seja tarde demais.”
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: a taxa de adesão aos novos pacotes de Broadcom/Anthropic e SpaceX, a evolução dos spreads no mercado secundário (especialmente papéis como os do Project Jupiter) e a capacidade das big techs de converter capex em receita recorrente de IA generativa. Se a curva de retorno não aparecer nos balanços do 4T24 e 1T25, a janela de financiamento barato pode fechar de vez — e forçar reestruturações em projetos já em andamento.
