Economia

O corte inevitável: por que o Brasil terá um “tesouraço” em 2025

Tesoura cortando documento orçamentário com bandeira do Brasil ao fundo, simbolizando corte de gastos públicos
O inevitável ajuste fiscal de 2025: tesoura nas despesas públicas brasileiras

O próximo presidente — seja quem for — herdará uma conta que não fecha sem dor. A matemática fiscal impõe um ajuste de magnitude rara nas próximas legislaturas. Ignorar esse cenário é apostar em inflação alta e desemprego em massa.

O rombo estrutural das contas públicas ultrapassa 2% do PIB mesmo com a economia crescendo. Não há margem para manobras contábeis nem espaço para novos impostos sem travar a atividade. O ajuste virá do lado da despesa.

O tamanho do buraco que ninguém quer mostrar

Dados do Tesouro Nacional revelam que gastos obrigatórios consomem 94% da receita líquida. Previdência, pessoal e benefícios sociais deixam menos de 6% para investimentos, custeio da máquina e tudo o mais. Em 2014, essa folga era de 18%.

A regra de teto de gastos, embora flexibilizada, ainda exige que a despesa primária cresça abaixo da receita. Com a dívida bruta acima de 76% do PIB, o serviço da dívida sozinho engole quase 40% do Orçamento. Cada ponto extra de juros custa R$ 50 bilhões ao ano.

Três frentes onde a tesoura vai cair

Qualquer equipe econômica séria mira três alvos prioritários. A ordem pode mudar, mas a substância não:

  • Revisão de benefícios tributários: renúncias fiscais somam R$ 540 bilhões (5% do PIB). Metade não tem avaliação de efetividade.
  • Reforma administrativa: carreira única, fim de progressões automáticas e teto remuneratório real podem poupar R$ 30 bilhões anuais em uma década.
  • Piso da previdência rural e BPC: equiparação de regras e combate a fraudes gerariam economia estimada de R$ 25 bilhões/ano.

Essas medidas, somadas, fecham cerca de 60% do buraco primário projetado para 2026. O resto virá de contenção de custeio e postergação de investimentos — o que cobra seu preço em infraestrutura lá na frente.

O custo político de adiar o inevitável

Governos que tentaram empurrar o ajuste com expansão de crédito público (BNDES, bancos oficiais) viram a inflação disparar dois anos depois. O ciclo se repete: expansão fiscal → alta de juros → recessão → queda de arrecadação → novo rombo.

O mercado já precifica selic a 12,75% no fim de 2025 se o ajuste for crível. Sem sinal claro de corte estrutural, a curva de juros longos abre para 14% e o dólar testa R$ 5,80. Quem paga a conta é o consumidor no supermercado e o empresário no capital de giro.

O que observar nos primeiros 100 dias

Três sinais dirão se o “tesouraço” será cirúrgico ou caótico: (1) envio de PEC limitando supersalários no serviço público; (2) decreto auditando todos os benefícios tributários com prazo de 180 dias; (3) proposta de idade mínima progressiva para servidor novo. Se nenhum aparecer até abril, prepare-se para juros altos por mais tempo.

A equação é simples: ou o Estado enxuga a própria estrutura, ou a sociedade paga via inflação e juros. Não existe terceira via matemática.