As maiores aéreas da Europa e dos EUA estão encolhendo operações e renegociando dívidas de leasing para atravessar a temporada fria. O gatilho é o combustível: o barril de aviação segue acima de US$ 1.200 a tonelada, quase o dobro do patamar histórico de US$ 700.
Executivos de Ryanair, IAG e Lufthansa admitem que pequenas e médias empresas podem não chegar a abril. A Delta já cortou US$ 6 bilhões da projeção de lucro anual apenas pelo choque no Oriente Médio.
O choque que derrubou as proteções
Por anos, *hedges* de petróleo blindaram o setor. Esses contratos estão vencendo e a reposição ficou cara demais. O *crack spread* — diferença entre o petróleo bruto e o querosene — explodiu, forçando IAG e Lufthansa a fazer hedge direto do combustível de aviação, algo raro até 2023.
Empresas americanas, que não costumam travar preço do querosene, ficaram expostas ao mercado à vista. “Mesmo quem comprou com seis meses de antecedência paga preços recordes”, resume Kenton Jarvis, CEO da easyJet.
Cortes reais: 6 milhões de assentos a menos só em setembro
Dados da Cirium mostram que o setor retirou 6 milhões de assentos programados para outubro, novembro e dezembro — cerca de 1% da capacidade global. A easyJet dobrou o corte planejado: mais 700 mil lugares fora da grade.
- Lufthansa deixa no solo A380 e 747, difíceis de lotar na baixa temporada.
- IAG reduziu voos da Vueling em Barcelona e realocou aeronaves para rotas premium.
- Ryanair enxuga operação “ao máximo possível”, segundo Michael O’Leary.
Leasing vira moeda de troca
Quase uma dezena de aéreas pediu para adiar parcelas de arrendamento por meses ou cortar 10% do valor mensal, revela uma grande *lessor* global. Muitas delas têm exposição direta ao Golfo Pérsico.
Outro grande locador confirma pedidos de players menores, mas pondera: a maioria dos clientes grandes mantém receita por passageiro em níveis saudáveis. A divergência entre quem tem caixa e quem não tem nunca foi tão nítida.
Frota velha sai mais rápido
Com entregas da Boeing e Airbus finalmente acelerando, a aposentadoria de jatos ineficientes virou ferramenta de caixa. A easyJet antecipou a saída dos A319; a Lufthansa fará o mesmo com modelos antigos. Menos aeronave velha = menor queima de querosene por assento.
O refúgio premium e a incógnita do lazer
Enquanto a classe executiva de longa distância segue cheia e insensível a preços, o lazer de curta distância dá sinais de fraqueza. “Quanto mais *premium* a operação, menor o impacto”, diz Carsten Spohr, da Lufthansa. A easyJet já vê reservas de verão 2024 abaixo do normal, mas nota que o cliente decide em cima da hora.
Luis Gallego (IAG) resume o cenário: “Ninguém sabe o que vai acontecer. Faremos o que for necessário.”
O que observar nos próximos 90 dias
Três variáveis vão ditar quem sobrevive ao inverno: a duração do prêmio do querosene (O’Leary aposta em 2028), a velocidade de recomposição dos *hedges* e a disposição dos *lessors* em alongar dívidas sem executar garantias. Se o lazer não reagir em janeiro, a onda de falências citada por analistas como John Strickland deixa de ser hipótese e vira balanço patrimonial.
