O Brasil parou no tempo não por falta de planos, mas porque quem manda no país lucra com a estagnação. A tese é do economista Alexandre Rands Barros e está no centro do livro O Grande Fracasso: a aliança entre classe média e elite captura o Estado, drena recursos e bloqueia a produtividade — enquanto o discurso público culpa a burocracia e os impostos.
Em 2023, o PIB per capita brasileiro equivalia a 25,5% do norte-americano e a um terço da média do G7. O número não é um acidente; é a consequência de um arranjo político que se consolidou após 1950 e nunca foi desfeito.
Como a classe média virou “colchão” dos privilegiados
Rands define a classe média como um amortecedor político. Ela recebe concessões — estabilidade no funcionalismo, previdência subsidiada, universidades públicas gratuitas — e, em troca, impede que os pobres se organizem para disputar o orçamento.
O resultado prático: recursos concentrados no topo da pirâmide. Cargos de alta remuneração, regimes previdenciários corporativos e vagas no ensino superior gratuito consomem verbas que faltam na educação básica.
A opção das famílias de classe média por escolas privadas, em vez de pressionar por uma rede pública de qualidade para todos, travou a formação de capital humano. Sem trabalhadores qualificados, a produtividade estanca — e o abismo para os países ricos se alarga.
Os “entraves clássicos” são sintomas, não causas
Muita gente aponta a burocracia, a insegurança jurídica e o “cipoal tributário” como vilões. Para Rands, eles são subprodutos da estrutura de classes:
- Estado inchado → cria postos cativos para burocratas e profissionais liberais.
- Complexidade tributária → alimenta a renda de advogados e auditores especializados em contencioso.
- Subsídios e proteções setoriais → blindam elites empresariais da concorrência e da inovação.
Enquanto a aliança dominante não for desfeita, reformas tecnocráticas trocam apenas a embalagem do problema.
O que precisaria mudar — e por que é tão difícil
O livro propõe uma nova aliança política centrada na produtividade geral e na inclusão dos trabalhadores pobres. O roteiro inclui cinco eixos:
- Concentrar recursos na educação fundamental pública de qualidade.
- Enxugar a máquina estatal, eliminando cargos e mercados cativos.
- Extinguir regimes previdenciários corporativos que privilegiam categorias organizadas.
- Reduzir emendas parlamentares que pulverizam o orçamento.
- Promover simplificação tributária real, expondo o setor produtivo à competição.
Nenhuma dessas medidas é tecnicamente nova. O obstáculo é político: cada item atinge diretamente os grupos que hoje decidem o que vota no Congresso e o que sai no Diário Oficial.
O que observar daqui para frente
Enquanto o debate público girar em torno de “ajustes fiscais” e “reformas administrativas” sem enfrentar a correlação de forças que sustenta os privilégios, o PIB per capita continuará andando de lado. Para o investidor e o empresário, o sinal claro é: ganhos de produtividade estrutural dependem de uma ruptura política que ainda não está no radar. Acompanhe a disputa orçamentária na educação básica e a tramitação da reforma tributária — elas revelarão se a aliança dominante começa a rachar ou se o “grande fracasso” ganha mais um capítulo.
