A Índia precisa gerar 7,8 milhões de empregos formais por ano fora da agricultura até 2030 apenas para acompanhar a entrada de jovens no mercado de trabalho. O número supera em quase cinco vezes a média anual de vagas criadas pelo Brasil nos últimos quatro anos. O país tem a maior população jovem do planeta — 370 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos —, mas a máquina de gerar renda não gira na mesma velocidade.
Nande Kumar, 32 anos, resume o dilema: programador em uma multinacional durante a semana, motorista de aplicativo nos fins de semana. “Meu trabalho não fecha a conta”, diz. A rotina dele expõe uma fratura que os indicadores macroeconômicos disfarçam: crescimento acima de 7% ao ano e PIB dobrado em uma década não impedem que metade da força de trabalho ainda dependa da lavoura.
O bônus demográfico que virou urgência
Por décadas, a juventude indiana foi vendida como trunfo competitivo. Enquanto China, Japão e Europa envelhecem, a Índia teria a “dividendo demográfico”: centenas de milhões em idade produtiva. O Ministério das Finanças reconhece hoje que o ativo virou passivo sem qualificação em massa e criação de empresas em escala industrial.
A conta é simples e implacável: 46% dos ocupados trabalham na agricultura, setor que responde por menos de 20% do PIB. O Brasil, em situação próxima do pleno emprego, criou 1,6 milhão de vagas por ano recentemente. A Índia precisará quintuplicar esse ritmo sustentadamente por seis anos consecutivos.
Onde estão os gargalos reais
O desemprego oficial de 5,1% mascara a pressão real. Entre jovens de 15 a 29 anos, a taxa sobe para 9,9%. Nas cidades, atinge 13,6%. Entre mulheres jovens, 18,9%. Pior: um em cada quatro jovens indianos nem trabalha, nem estuda, nem recebe treinamento — o chamado NEET. No recorte feminino, a fatia salta para 42%.
Esses milhões de invisíveis não aparecem nas estatísticas de desemprego porque não buscam vaga ativamente. Mohd Sameer, 18 anos, está nessa condição: “Não tenho emprego, mas logo saio em busca”. Satyveer Yadav, 24, completa: “Sei que posso trabalhar duro”. A informalidade absorve quem não encontra porta de entrada.
- 370 milhões de jovens de 15 a 29 anos (população equivalente a quase dois Brasis)
- 7,8 milhões de empregos formais/ano necessários fora da agropecuária até 2030
- 46% da força de trabalho na agricultura (<20% do PIB)
- 25% dos jovens em condição NEET (42% entre mulheres)
- 50 mil alunos no bacharelado online do IIT Madras sem vestibular tradicional
Software não basta: a fábrica que falta
V. Kamakoti, diretor do IIT Madras — eleito a melhor instituição tecnológica da Índia por dez anos —, é direto: “Somos superpotência de software. Temos engenheiros excelentes. Mas é necessário fechar toda a cadeia de manufatura com semicondutores, precisamos ter fábricas”.
O funil da elite educacional ilustra o abismo: 1,5 milhão de candidatos disputam 20 mil vagas nos IITs anualmente. Quem fica de fora cai na informalidade ou subemprego, muitas vezes sem domínio do inglês — língua que funciona como ponte para a economia global, mas não chega às camadas mais pobres.
O IIT Madras tenta mitigar com bacharelado online sem vestibular: 50 mil atendidos, dos quais mais de 10 mil viviam próximo à extrema pobreza. É um começo, mas a escala do desafio exige muito mais.
Duas Índias na mesma calçada
Arranha-céus e carros de luxo convivem com ruas sem esgoto, moradias precárias e trabalho informal nas ruelas da Velha Déli. Entre 2013 e 2023, 248 milhões saíram da pobreza. Ainda assim, 160 milhões (11% da população) permaneciam pobres em 2023.
Modi promete “pobreza zero” em 20 anos e “Viksit Bharat” (Índia desenvolvida) em 2047, centenário da independência. No para-brisa de Kumar, duas décadas soam como eternidade. Com tosse crônica pela poluição, ele segue dirigindo sete dias por semana: “Preciso guardar dinheiro e pagar dívidas”. Sonha em visitar Nova York, mas o objetivo imediato é voltar à cidade natal — “lá tem ar limpo”.
O que observar daqui para frente
A projeção oficial aponta 345 milhões de jovens em 2036: a onda demográfica não é passageira. Três variáveis definirão se o dividendo vira desenvolvimento ou instabilidade: (1) velocidade da transição da agricultura para manufatura e serviços de maior valor; (2) inclusão massiva de mulheres no mercado formal; (3) expansão real de capacitação técnica além da elite dos IITs, com foco em inglês e habilidades digitais para a base da pirâmide. O próximo ciclo de reformas trabalhistas e industriais — e a capacidade de atrair cadeias globais de semicondutores — dirá se a Índia transforma quantidade em qualidade de emprego.
