As ações de MRV, Cury e Tenda fecharam a sexta-feira com altas expressivas, puxadas por prévias operacionais do terceiro trimestre e um cenário macroeconômico favorável. Mas a festa esconde divergências importantes nos balanços e um risco silencioso vindo da Caixa. Entender o que é ruído e o que é sinal pode definir seu posicionamento no setor.
O gatilho macro: juros longos em queda livre
O motor principal da alta não veio dos canteiros de obra, mas das pesquisas eleitorais. Levantamentos recentes colocando Flávio Bolsonaro à frente na corrida presidencial de 2026 derrubaram as taxas dos DIs de longo prazo. O mercado precifica que uma eventual vitória traria maior rigor fiscal, abrindo espaço para Selic mais baixa adiante.
Para construtoras, altamente alavancadas e sensíveis ao custo do dinheiro, a matemática é direta: juros futuros menores elevam o valor presente dos fluxos de caixa. O rali beneficiou até papéis de empresas que nem sequer divulgaram números nesta semana.
MRV: caixa recorde, mas com asterisco
A MRV (MRVE3) foi a estrela do pregão, saltando 21,62% e liderando o Ibovespa. O balanço trouxe geração de caixa de R$ 456 milhões e vendas líquidas de R$ 3 bilhões (+29,6% a/a). O ticket médio subiu 3,1%, para R$ 276 mil.
Porém, analistas do Itaú BBA e Bradesco BBI divergiram na leitura. Veja os pontos de atenção:
- Metodologia: Parte do salto nas vendas vem de mudança no reconhecimento contábil, inflando o comparativo.
- Greve na Caixa: Travou transferências e tirou cerca de R$ 80 milhões da geração de caixa do trimestre.
- Alavancagem: Desinvestimentos em andamento ajudam, mas a fraqueza do caixa pode postergar a volta da confiança total dos investidores.
Cury: a “queridinha” dos analistas entrega consistência
A Cury (CURY3) subiu 9,66%, para R$ 34,52. Vendas líquidas de R$ 1,8 bilhão (+10,7%) e ticket médio de R$ 322,8 mil (+7,7%). O Itaú BBA classificou o resultado como “melhor que o previsto”, destacando a relação VSO (vendas sobre oferta) saudável e geração de caixa forte.
O Bradesco BBI reconhece pressão nos repasses por cancelamentos, mas mantém compra. A tese: demanda real segue firme e a normalização da Caixa deve destravar valor no programa Minha Casa Minha Vida.
Tenda: crescimento com alerta estrutural
Tenda (TEND3) avançou 4,78% (R$ 30,90), com vendas de R$ 1,29 bilhão (+4,4%). O BBI vê landbank recorde e exposição crescente aos Grupos 3 e 4 do MCMV como trunfos de longo prazo.
O “porém” pesado: critérios de crédito mais duros da Caixa e menor uso de financiamento pró-soluto pela empresa tendem a comprimir preços médios e margens nos próximos trimestres. A recomendação de compra segue, mas com visibilidade reduzida no curto prazo.
O risco que ninguém precificou direito
A greve da Caixa funcionou como um “cisne negro” operacional no 3T. Ela distorceu geração de caixa, distratos e velocidade de repasses em todas as três companhias. A promessa das gestões é de normalização no 4T26.
Mas há um detalhe: a dependência do banco estatal não vai desaparecer. Qualquer nova paralisação ou mudança nas regras de enquadramento do MCMV atinge em cheio a previsibilidade dos resultados. O investidor precisa monitorar a relação entre velocidade de transferência e estoque de unidades prontas nos próximos releases.
O que observar daqui para frente
O rali eleitoral deu o empurrão, mas a sustentação da alta depende da entrega operacional no 4T26. Fique atento a três variáveis: 1) Se a geração de caixa da MRV volta ao patamar projetado sem o ruído da greve; 2) Se a Cury mantém a disciplina de VSO e caixa forte; 3) Se a Tenda consegue repassar custos ou se as margens seguem pressionadas pelo crédito mais caro. O balanço completo, com notas explicativas, será o verdadeiro teste de fogo.
