Economia

Crise de custo de vida: por que governos insistem em remédios que não funcionam

Gráfico de inflação global com famílias impactadas pela crise do custo de vida
Inflação global atinge bens essenciais enquanto governos insistem em políticas ineficazes

Quase 90% dos países enfrentaram crises severas de custo de vida nas últimas duas décadas, mas a maioria dos governos continua apostando em medidas que beneficiam mais os ricos do que os vulneráveis. O FMI acaba de confirmar: a receita padrão está errada — e o preço político começa a aparecer nas urnas.

O dado central está no World Economic Outlook mais recente: em economias avançadas, fatores globais explicam 70% da alta nos bens essenciais. Ainda assim, políticos nacionais carregam 100% da culpa — e reagem com ferramentas que mal aliviam a dor real.

O que separa inflação de crise real de acessibilidade

Irving Fisher já distinguia isso em 1912: não basta o carrinho de supermercado custar mais. Crise de custo de vida acontece quando os preços de itens indispensáveis — comida, energia, transporte — disparam mais rápido que as rendas. O FMI adota critério semelhante: alta atípica de necessidades básicas sem acompanhamento dos salários.

Pela métrica do fundo, uma crise típica eleva o custo do essencial em mais de 8% acima da inflação geral ao longo de 18 meses. O efeito dura anos. No pico, salários reais caem quase 6% frente a cenário sem crise.

Alexander Konüs, economista russo dos anos 1920, já antevia a fuga dos consumidores: diante de preços assimétricos, famílias trocam itens caros por substitutos mais baratos sem necessariamente perder qualidade de vida. Mas com comida e energia, a margem de substituição é quase nula.

O remédio preferido dos governos — e por que falha

Contenção de preços: cortes de impostos indiretos, subsídios a produtores, tabelamento. Soa rápido, visível e popular. O problema? Os números do FMI mostram que, para cada euro gasto segurando conta de luz, gás e gasolina na Europa, apenas 20 centavos chegaram aos mais pobres.

Três razões estruturais explicam o vazamento:

  • Ricos consomem mais volume dos bens subsidiados — logo, capturam a fatia maior do benefício.
  • Subsídios a produtores viram vantagem competitiva externa: dinheiro do contribuinte financia clientes estrangeiros.
  • Controle de preços sem repasse de custos quebra empresas de utilidade pública, gerando resgates fiscais futuros.

Há um quarto efeito, mais sutil: preços artificiais apagam o sinal de escassez. Consumidores não reduzem demanda nem buscam alternativas. É como morar na Baía de Fundy — onde as marés sobem 16 metros — e confiar apenas nos diques antigos em vez de reforçar a casa.

Por que a teimosia política só aumenta

Em 2022/23, menos de 40% das respostas em países ricos miravam contenção de preços. Na crise atual, o percentual saltou para 70%. A explicação não é técnica — é eleitoral.

Entre um episódio e outro, governantes de várias nações perderam mandatos. A conta política de não “fazer nada visível” ficou alta demais. Transferências diretas a vulneráveis são mais eficientes, mas exigem cadastros, tecnologia e tempo — luxos que muitos emergentes não têm e que ricos evitam em ano de eleição.

Cortar imposto na bomba ou congelar tarifa de ônibus sai no dia seguinte. O custo fiscal vem depois — e costuma cair no colo do sucessor.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se a próxima onda de choques — geopolítica, clima, transição energética — virará crise política ou ajuste gerenciável:

  • Capacidade de focalização: países com cadastros sociais digitais (Brasil, Índia, Indonésia) conseguem direcionar recursos em semanas, não meses.
  • Regra fiscal com cláusula de escape: quem tem arcabouço que permite gasto temporário e transparente em emergências evita o improviso eleitoreiro.
  • Comunicação de expectativas: governos que explicam a origem externa do choque e a limitação de ferramentas domésticas reduzem a punição nas urnas — o FMI cita evidências de que expectativas de inflação caem “ligeiramente” com contenção, mas a credibilidade institucional cai mais quando a medida falha.

O mar não para de subir. A diferença entre afundar ou navegar não está no tamanho da onda — está em quem construiu diques modernos enquanto a maré estava baixa.