O endividamento das famílias brasileiras recuou pela primeira vez desde dezembro do ano passado, caindo de 82% para 81,7% em setembro. A inadimplência geral também cedeu, mas esconde uma divergência perigosa: enquanto as classes mais baixas respiram, o calote subiu entre quem ganha mais de 10 salários mínimos.
Esse movimento inverso levanta uma dúvida central: estariam os mais ricos inadimplentes por necessidade ou por estratégia financeira? A resposta muda completamente a leitura do cenário econômico.
O que os números mostram de concreto
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, revela um alívio tímido. O pico de 82,2% registrado em abril e maio ficou para trás, e a expectativa é fechar o ano em torno de 81,5%.
Os indicadores de risco também melhoraram na margem:
- Inadimplência total: caiu de 29,9% para 29,6%;
- Sem condições de pagar: estável em 12,5%;
- Muito endividadas: recuou de 17,9% para 17,3%;
- Famílias sem dívidas: subiu de 17,4% para 18,1%.
Mas há um “porém” relevante: o tempo médio de atraso saltou para 65,3 dias, o maior nível desde novembro de 2024. Quase metade das dívidas vencidas (48,9%) já passa de 90 dias em aberto.
A fratura exposta na alta renda
A inadimplência recuou nas três faixas de renda mais baixas. A queda foi mais intensa entre quem ganha até três salários mínimos (38,8% para 38,5%). Já no topo da pirâmide — renda superior a 10 salários mínimos —, o indicador subiu de 14,9% para 15%. Foi a única alta registrada.
Para a economista Juliana Inhasz, do Insper, isso não necessariamente sinaliza deterioração patrimonial. “Pode fazer sentido manter o dinheiro investido em renda fixa, com juros altos, e parcelar a compra no cartão”, explica. Nesse cenário, o atraso seria uma escolha de alocação de capital, não falta de liquidez.
Mas o efeito nos números agregados é real: a inadimplência de alta renda puxa a média para cima e distorce a percepção de risco do varejo e do sistema financeiro.
Orçamento apertado e dívidas mais longas
Apesar da melhora no endividamento total, o bolso segue pressionado. Em média, 29,6% da renda das famílias está comprometida com parcelas. O dado mais sensível: 19,4% dos lares destinam mais da metade do salário para pagar dívidas — o maior percentual desde fevereiro.
Outro movimento estrutural: as dívidas com prazo superior a um ano passaram a representar 33,8% do total. Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil 2, alongam os contratos. Isso reduz a parcela mensal, mas estende o período de vulnerabilidade financeira.
Na prática, a família “desenrola” o curto prazo, mas carrega o passivo por anos a fio.
O perigo do parcelamento no dia a dia
Juliana Inhasz faz um alerta direto para o comportamento de consumo, especialmente nas classes de menor renda, onde a previsibilidade do salário costuma pesar mais que o valor nominal.
Ela destaca dois erros frequentes:
- Tratar limite do cartão como renda extra: não é. É um empréstimo pré-aprovado com juros altíssimos;
- Parcelar consumo imediato (supermercado, farmácia): cria passivos futuros sem gerar ativo correspondente. A geladeira continua lá daqui a 12 meses; a comida, não.
Esse ciclo — parcelar o essencial, comprometer meses futuros e recorrer a novo crédito para fechar a conta — é a porta de entrada para a inadimplência crônica.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o rumo do endividamento nos próximos trimestres: a resiliência do mercado de trabalho, a trajetória da Selic e a eficácia dos programas de renegociação na redução do estoque de dívidas vencidas há mais de 90 dias.
Se o alongamento de prazos não vier acompanhado de queda real nos juros ou alta de renda, o alívio atual pode ser apenas uma pausa — não uma virada de ciclo. Para o empresário e o investidor, o sinal está na qualidade do crédito concedido: carteiras expostas a parcelamento de consumo não durável e a alta renda “estratégica” merecem monitoramento redobrado.
