A ONU projeta que a economia brasileira crescerá apenas 1,5% em 2027, após 1,8% em 2026 — uma desaceleração brusca frente aos 2,3% esperados para este ano. O relatório Trade and Development Report 2026, da Unctad, aponta juros altos e inflação persistente como os principais freios. Mas há um detalhe que muda o cenário para quem decide onde alocar capital.
Por que o Brasil perde fôlego mais rápido que os pares
O documento cita o Brasil entre os países cujos bancos centrais mantiveram as taxas ainda elevadas, encarecendo o crédito às famílias. Diferente do ciclo anterior, o afrouxamento monetário travou após o choque do petróleo provocado pela guerra no Oriente Médio — o barril do Brent saltou de US$ 70 para mais de US$ 110 em semanas.
Com isso, a inflação global reagiu e forçou bancos centrais a adiar cortes. O Fed (EUA) subiu juros em setembro de 2025 pela primeira vez desde 2023. Juros longos de títulos ricos tocaram máximas de duas décadas, contaminando o custo de financiamento no mundo todo.
O que ainda sustenta o crescimento doméstico
Apesar do freio, três pilares evitam uma queda mais forte:
- Consumo das famílias — resiliente, embora pressionado por crédito caro
- Investimento privado — focado em setores exportadores e infraestrutura
- Exportações agrícolas — robustas, beneficiadas pela reconfiguração do comércio global
Essa combinação explica por que o Brasil não entra em recessão, mas cresce abaixo da média mundial (2,6% em 2026 e 2,7% em 2027).
O novo papel geoeconômico que ninguém comenta
A Unctad coloca o Brasil ao lado de Índia e Nigéria como “âncoras regionais” numa ordem multipolar onde regras multilaterais perdem força. Na prática, isso significa:
- Expansão do Pix para Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai (com negociações avançadas com México e Portugal)
- Maior protagonismo em cadeias de valor agrícolas e minerais
- Capacidade de atrair investimentos que fogem da concentração EUA-China
Mas o relatório alerta: ganhos de produtividade dependem de avançar em infraestrutura digital e logística — gargalos que o País ainda não resolveu.
O motor oculto da economia mundial: IA e seus riscos
O que impede uma desaceleração global maior é o investimento em inteligência artificial. Só nos EUA, data centers devem absorver US$ 400 bilhões em 2026 e US$ 600 bilhões em 2027. O comércio de semicondutores e servidores cresceu 22% em 2025, chegando a US$ 4,2 trilhões — 42% do crescimento nominal do comércio de mercadorias.
Porém, a concentração é extrema. Dos ganhos de um servidor de ponta da Nvidia, 68% ficam com lucro operacional da cadeia do setor; trabalhadores levam menos de 15%. Países em desenvolvimento ficam com fatia inferior a 1%.
Sinais de bolha que o mercado ignora
A Unctad vê traços especulativos no setor. O investimento em IA financiado por dívida soma US$ 4,1 trilhões projetados até 2030. A frase do relatório é direta: “a corrida mal começou, mas já é grande demais para falhar”.
No segundo trimestre de 2026, o índice de preços do comércio de mercadorias subiu 29% (anualizado), enquanto o volume cresceu só 1,5%. Boa parte da alta recente é inflação de ativos, não demanda real.
Comércio global: não recua, se rearranja
O comércio direto China-EUA caiu mais de 20% em 2025. Em compensação, outras economias do Leste Asiático aumentaram exportações para os EUA em 23,3% e para a América do Norte em 32,2%. A China redirecionou vendas para o Leste Asiático (+12,8%), Europa (+11,6%) e outros países em desenvolvimento (+11,1%).
O Brasil está no grupo que ganha com essa reconfiguração — desde que consiga escalar logística e certificações sanitárias.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o Brasil fica nos 1,5% ou surpreende para cima: (1) velocidade da queda da Selic frente à inflação de serviços; (2) capacidade de capturar parte dos investimentos em IA que buscam diversificação geográfica; (3) avanço da integração de pagamentos instantâneos na América Latina, que pode reduzir custo de transação e ampliar comércio regional. O próximo relatório da Unctad, em meados de 2026, trará a primeira revisão dessas projeções — e o mercado já precificou o pessimismo.
