Economia

Keeta mira capitais em 2027: o plano que pode quebrar o duopólio do delivery

Logotipo do app Keeta sobre mapa do Brasil destacando cidades do interior e capitais
Keeta prioriza 21 cidades do interior em 2024 e mira capitais apenas em 2027 para desafiar iFood e 99Food

A Keeta, braço de delivery da chinesa Meituan, confirmou que levará seu aplicativo às capitais brasileiras apenas em 2027. Antes disso, a empresa estreia em 21 cidades do interior ainda neste ano — um movimento calculado para contornar as barreiras que travaram sua expansão original.

O anúncio muda o tabuleiro de um mercado dominado por iFood e 99Food. Mas a data distante esconde uma estratégia de bastidor que vale a pena entender.

Por que o interior vem antes das capitais

Segundo o vice-presidente Danilo Mansano, a velocidade de lançamento em municípios menores pesou na decisão. “A Keeta chegou ao Brasil com a proposta de atender 80% da população urbana brasileira. Isso nunca mudou”, afirmou.

Nas 21 cidades escolhidas — espalhadas por Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul —, a plataforma operará no modelo full-service: o app media a venda e organiza a logística de entrega, sem depender dos próprios restaurantes para isso.

O ganho é duplo: cozinhas focam no preparo e clientes recebem pedidos mais rápido.

O obstáculo que forçou a mudança de rota

O plano inicial previa fechar o primeiro ano em 16 regiões metropolitanas. Não aconteceu. Contratos de exclusividade firmados entre restaurantes e as concorrentes 99Food e iFood bloquearam o avanço.

Mansano resume: “Por isso a companhia resolveu focar todos os esforços na questão regulatória e de competitividade”. Parte da liderança foi realocada para atuar exclusivamente nesse front.

Dois sinais de que o ambiente está mudando

Dois fatos recentes fortalecem a tese de que a barreira de entrada pode ceder:

  • Decisão judicial em São Paulo: a Justiça considerou ilegais cláusulas de banimento em contratos da 99Food, abrindo precedente contra exclusividades abusivas.
  • Domínio de dados do iFood: Mansano aponta que o concorrente usa o histórico de desempenho dos restaurantes para escolher quais tornar exclusivos — prática que a Keeta questiona.

Em junho, a Keeta chegou a solicitar dados de contratos com o iFood para custear a quebra de exclusividade de parceiros. A empresa nega ter pedido informações sensíveis, apenas comprovantes de valores.

O efeito São Paulo: mercado dobrou em 18 meses

Hoje, a única capital atendida é São Paulo, onde a Keeta opera desde novembro de 2025. Estudos internos mostram que o mercado de delivery de comida na cidade dobrou de tamanho desde a chegada do app.

O dado sugere que a entrada de um terceiro player expande a torta, não apenas redistribui fatias. Para investidores e donos de restaurantes, é o sinal mais concreto de que a concorrência faz bem ao setor.

Raio-X da operação no Brasil

  • Fundação global: 2023 (braço internacional da Meituan)
  • Sede brasileira: São Paulo
  • Time local: 1.200 funcionários (130 mil no grupo Meituan)
  • Presença atual: Santos, São Vicente, Grande São Paulo + 21 cidades do interior (em implantação)
  • Faturamento global 2025: US$ 52,8 bi (≈ R$ 275 bi)
  • Concorrentes diretos: iFood, 99Food, Rappi

O que observar daqui para frente

A promessa de capitais em 2027 parece distante, mas o cronograma depende de duas variáveis: o desfecho das discussões regulatórias sobre exclusividade e a velocidade de replicação do modelo full-service em larga escala.

Se a Justiça mantiver o entendimento contra cláusulas restritivas e a Keeta provar que sua logística própria escala, a entrada nas grandes cidades pode ser antecipada. Para quem negocia contratos com plataformas hoje, a regra prática é clara: evite exclusividades longas sem cláusulas de saída. O mercado que vem aí terá mais de duas opções — e quem estiver preso perde poder de barganha.