A euforia da bolsa e o alívio no câmbio após o primeiro turno não são uma declaração de amor ao clã Bolsonaro. O mercado financeiro vota no bolso — e, naquele momento, o bolso pedia previsibilidade.
O Ibovespa saltou forte, o dólar recuou para patamares que não via há meses e a curva de juros futuros inclinou para baixo. A leitura rápida aponta para um “voto bolsonarista” do capital. A leitura correta, porém, aponta para a aversão a um cenário de expansão de gastos sem lastro.
O que move o preço não é a ideologia
Operadores não compram ações por simpatia política. Compram quando a probabilidade de interferência na Petrobras, de furo no teto de gastos ou de descontrole inflacionário diminui. A vitória expressiva no primeiro turno sinalizou força política para aprovar reformas ou, no mínimo, bloquear pautas consideradas heterodoxas.
Foi uma aposta na manutenção da autonomia do Banco Central e na continuidade de uma política fiscal que, apesar de frouxa, tinha rédeas. O “kit transparência” — câmbio flutuante, meta de inflação e responsabilidade fiscal — valeu mais que o candidato.
O prêmio de risco caiu, mas a conta não fechou
O alívio imediato mascara um problema estrutural: a dívida pública segue em trajetória explosiva. O mercado precificou a *não piora* no curto prazo, não a solução. Enquanto o arcabouço fiscal não entregar superávit primário consistente, o prêmio de risco continuará caro.
- Juros reais: ainda entre os mais altos do mundo.
- Dívida/PIB: acima de 75% e subindo.
- Investimento externo: volátil, sensível a ruídos de Brasília.
Quem comprou no oba-oba do primeiro turno correu o risco de carregar posições em um ambiente que, semanas depois, já cobrava a fatura da incerteza fiscal.
O Congresso é o verdadeiro fiador
Independente de quem sentasse na cadeira principal, a configuração do Legislativo ditou o ritmo. Uma base de centro-direita ampla no Congresso funcionou como um “seguro” contra aventuras heterodoxas. O mercado apostou na força do Centrão para frear impulsos — tanto os de esquerda quanto os de direita radical.
Essa dinâmica explica por que a bolsa sobe mesmo com ruídos institucionais. O Parlamento virou o âncora de estabilidade. Enquanto a Reforma Tributária andava e o arcabouço fiscal era debatido, o risco de cauda diminuía.
O que observar daqui para frente
O investidor que leu até aqui sabe: o rally pós-eleição costuma ser curto. O gatilho real para a bolsa sustentar alta não é a posse, mas a execução orçamentária. Acompanhe a arrecadação federal nos primeiros trimestres, a tramitação do Orçamento e a postura do BC frente às expectativas de inflação desancoradas.
Se o governo — qualquer governo — entregar superávit primário crível, o “bolsonarismo” do mercado vira apenas “lucratividade”. Se não entregar, a conta chega em forma de juros altos e câmbio pressionado, sem perguntar a cor da camiseta de quem está no Planalto.
