A discussão sobre os programas econômicos dos candidatos à presidência praticamente não existe. O eleitor encontra apenas frases de efeito e camuflagens, enquanto temas urgentes para o bolso e para o futuro do país seguem sem resposta clara.
O debate resume-se quase apenas ao “fiscal” — gastos e impostos —, ignorando eixos estruturais. Mas o silêncio mais perigoso ronda o mundo do trabalho e as relações internacionais. Entender o que não está sendo dito pode definir o próximo ciclo econômico.
O vazio sobre o trabalho e a Previdência
A eventual votação do fim da escala 6×1 forçou os finalistas a se posicionarem, mas as propostas revelam falhas graves. Lula apoia a mudança, considerada necessária, porém o projeto atual carrega riscos para o próprio trabalhador. Flávio Bolsonaro propõe “libertar” o trabalhador para negociar seu tempo direto com a empresa, uma ideia classificada como escárnio diante da assimetria de poder.
Nenhum dos dois enfrenta o cerne do problema: a combinação de pejotização, precarização e informalidade seca a arrecadação previdenciária. Sem enfrentar essa equação, o rombo nas contas da Previdência tende a se agravar independentemente de quem vencer.
Relações internacionais: entre o protecionismo e a subordinação
Para além do comércio, o vazio programático assusta. Do lado de Lula, a trajetória aponta para protecionismo estável, multilateralismo vago e acordos comerciais limitados sob a bandeira do “Sul Global”.
Já o bolsonarismo prega aliança “carnal” com os EUA e livre-comércio de fachada. O histórico mostra turbulências diplomáticas e promessas não cumpridas. Perguntas cruciais permanecem no ar:
- Haverá abertura comercial unilateral e paulatina, reduzindo tarifas sem reciprocidade?
- Como reagir às exigências americanas, como a reserva de mercado de terras raras?
- Haverá confronto com a China, principal parceiro comercial?
- O acordo de livre-comércio real com a Argentina de Milei sobreviverá aos lobbies empresariais dos dois lados?
Tecnologia, meio ambiente e ciência: o apagão de propostas
Outro ponto cego é a regulação das big techs e o combate a paraísos fiscais. Não há sinal de como o governo lidará com a pressão por dados e data centers. Simultaneamente, acordos ambientais — como as barreiras da União Europeia e dos EUA contra produtos de áreas desmatadas — afetam diretamente financiamentos externos e exportações, mas seguem sem estratégia clara.
O desempenho do governo Lula 3 em ciência e pesquisa foi classificado como medíocre. Sem investimento nessas áreas e na reforma universitária, planos de transição energética e renovação tecnológica tornam-se letra morta. Do outro lado, a relação do bolsonarismo com as universidades é marcada pelo confronto ideológico.
O dilema fiscal: imobilismo ou estelionato eleitoral?
No front das contas públicas, o cenário oscila entre dois riscos históricos. A continuidade (Lula 4) sinaliza mudanças mínimas, empurrando o problema com a barriga rumo à estagnação. A alternância (Bolsonaro 2) promete choques sem conter gastos sociais ou cortar impostos sem lastro na despesa.
A história recente adverte: imobilismo leva à mediocridade, mas “mudanças de rumo” bruscas costumam terminar em crises. Exemplos não faltam:
- 1990 (Collor): confisco e calote.
- 1999 (FHC 2): desvalorização cambial forçada.
- 2015 (Dilma 2): ajuste recessivo e liberação de preços.
O debate sobre o “ajuste” necessário anda mal, restrito à especulação do que se poderia fazer, sem plano concreto.
O que observar daqui para frente
Enquanto a campanha foca no varejo eleitoral, o empresário e o investidor devem monitorar três variáveis decisivas nos primeiros 100 dias de governo: a sinalização para a regra fiscal (se haverá ancoragem crível), o posicionamento efetivo nas negociações comerciais com EUA e China, e a execução orçamentária para ciência e tecnologia. A ausência de respostas agora não significa ausência de consequências depois — significa apenas que a conta chegará sem aviso prévio.
