Ciência

Lagarta que destrói lavouras pode ser a chave para acabar com o lixo de isopor nas cidades

Lagarta Helicoverpa armigera sobre pedaços de isopor em laboratório de pesquisa da UFSCar
Pesquisadores da UFSCar descobrem que fungos intestinais da lagarta degradam isopor, transformando praga agrícola em solução ambiental.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos descobriram que fungos no intestino da lagarta Helicoverpa armigera são capazes de degradar o poliestireno expandido, o popular isopor. O inseto, conhecido por causar prejuízos bilionários à agricultura, agora surge como uma rota biológica promissora para um resíduo que desafia a reciclagem convencional. A ciência ainda está no laboratório, mas o potencial de escala já mobiliza a indústria do plástico.

Por que o isopor é um problema que não some

O material é 98% ar e apenas 2% polímero. Essa leveza que o torna perfeito para embalagens e isolamento térmico é exatamente o que inviabiliza sua reciclagem econômica. Ocupa volume enorme nos caminhões e centrais de triagem, exige maquinário específico de compactação e, no fim, devolve pouca matéria-prima ao mercado.

No Brasil, a maior parte do isopor descartado vai para aterros ou, pior, para rios e oceanos. A estrutura molecular do poliestireno resiste à degradação natural por décadas. Encontrar um agente biológico que “coma” esse plástico muda completamente a equação logística e ambiental.

O inimigo do agronegócio vira aliado do meio ambiente

A Helicoverpa armigera chegou ao Brasil por volta de 2013 e se espalhou rápido. Ataca soja, milho, algodão e tomate, entre outras culturas. O custo de controle com defensivos agrícolas subiu drasticamente nas últimas safras. No laboratório da UFSCar, porém, o olhar sobre o inseto mudou.

O professor Flavio Henrique Silva, do Departamento de Genética e Evolução, notou algo inusitado: lagartas mantidas em potes plásticos roíam as tampas e fugiam. A observação casual abriu a porta para testar o isopor como fonte de carbono. O resultado? Os fungos intestinais do inseto metabolizam o polímero.

Como funciona a degradação biológica

Não é a lagarta que “digeri” o plástico diretamente. São os microrganismos simbióticos no trato digestivo dela que quebram as longas cadeias do poliestireno. O processo transforma o polímero em moléculas menores, potencialmente reaproveitáveis como insumos químicos ou energia.

  • Estágio atual: escala laboratorial, volumes pequenos.
  • Meta: isolar e otimizar os fungos para biorreatores industriais.
  • Vantagem: dispensa a compactação e o transporte de material volumoso.

O grupo de pesquisa agora foca em identificar quais espécies fúngicas são as principais responsáveis e como cultivá-las fora do inseto — eliminando a necessidade de criar lagartas em massa.

O que a indústria pensa da solução viva

Carla Castilho, engenheira da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), vê espaço para a biotecnologia nas cooperativas de reciclagem. “Algum isopor que não possa ir para o maquinário, ou que não tenha tanto valor para a cooperativa, talvez a gente possa destinar para as lagartas”, afirma. A ideia é complementar, não substituir, a reciclagem mecânica existente.

O ganho logístico é claro: resíduos sujos, fragmentados ou contaminados — hoje rejeitados — poderiam ser tratados biologicamente no próprio local de triagem, reduzindo custos de transporte e destinação final.

Os próximos passos para sair do laboratório

Três frentes caminham juntas: isolamento das cepas fúngicas mais eficientes, engenharia metabólica para acelerar a quebra do polímero e desenho de biorreatores de baixo custo. Não há data para implantação comercial, mas a direção é clara: transformar um passivo ambiental em matéria-prima renovável.

Enquanto a escala industrial não chega, o estudo reforça uma lição valiosa: soluções para resíduos persistentes podem estar escondidas em organismos que consideramos pragas. Observar a natureza com ferramentas moleculares modernas abre caminhos que a engenharia tradicional sozinha não encontra.

O que observar daqui para frente

Acompanhe a publicação de artigos revisados por pares detalhando as cepas fúngicas isoladas e suas taxas de degradação. O licenciamento de patentes e parcerias com empresas de biotecnologia serão sinais de que a tecnologia migrou da bancada para o piloto. Para gestores de resíduos e investidores, o horizonte é de uma nova categoria de ativos: biofábricas de despoluição plástica.