O financiamento para ações climáticas na América Latina e no Caribe saltou de US$ 54 bilhões para US$ 108 bilhões entre 2020 e 2024. O número impressiona, mas esconde um descompasso perigoso: petróleo, gás e carvão absorveram US$ 95 bilhões no ano passado, mais que o dobro dos US$ 43 bilhões destinados a renováveis.
O levantamento inédito da Climate Policy Initiative (CPI) revela que a transição energética na região corre em duas velocidades — e a mais rápida ainda aponta para o passado.
O Brasil carrega a região nas costas
O país concentrou 58% de todo o capital climático da região em 2024, totalizando US$ 63 bilhões. O crescimento brasileiro no período foi de 162,5%, puxado por energia solar e agricultura de baixo carbono. Enquanto isso, o resto da América Latina avançou apenas 50%.
Na conta per capita, a diferença fica nítida: cada brasileiro recebeu em média US$ 297 em financiamento climático no ano passado. A média regional ficou em US$ 164.
- Brasil: US$ 63 bi (58% do total)
- Demais países sul-americanos: US$ 25 bi
- México: US$ 8 bi
- América Central: US$ 7 bi
- Caribe: US$ 5 bi
Mitigação leva quase tudo; adaptação fica com migalhas
Dos US$ 108 bilhões, 78,7% foram para mitigação — projetos que cortam emissões. Sistemas de energia ficaram com metade. Florestas e agricultura, 29%.
A adaptação, essencial para preparar cidades contra enchentes, secas e ondas de calor, recebeu apenas 12% (US$ 13 bi). Projetos híbridos, 9%.
O Brasil destina só 9% do seu bolo à adaptação, o menor percentual da região. No Caribe, o índice sobe para 16%; na América Central, 21%.
Dinheiro público e privado se equivalem, mas a origem muda
Em 2024, a divisão foi quase exata: US$ 54,8 bi públicos contra US$ 53,4 bi privados. A semelhança para por aí.
No Brasil, 66% do capital é privado. No resto da América do Sul, o público domina com 62%. No Caribe, 75% vêm do Estado. Na América Central, 77%.
A explicação da CPI é direta: mercados maduros atraem capital próprio; mercados menores e mais arriscados dependem de dinheiro de fora.
O risco da dívida climática
No Caribe, 58% do financiamento vem do exterior. No Brasil e no México, o capital doméstico responde por 89% e 64%, respectivamente.
O problema: a maior parte do dinheiro público internacional chega como empréstimo. Para nações já endividadas, cada dólar verde pode virar uma armadilha futura.
Entre 2023 e 2024, o fluxo internacional caiu 3%. Analistas veem risco de nova queda em 2025, com mudanças de prioridade dos doadores e endividamento crescente da região.
O buraco até 2030
Para cumprir metas de carbono, o financiamento climático na América Latina e no Caribe precisa crescer pelo menos cinco vezes nos próximos seis anos. A meta anual mínima: US$ 467 bilhões.
O relatório aponta três frentes urgentes: fortalecer sistemas financeiros locais, atrair mais capital privado e alinhar orçamentos públicos às metas de emissões.
O que observar daqui pra frente
A leve queda de 2023 para 2024 (US$ 110 bi para US$ 108 bi) pode ser ruído estatístico ou começo de tendência. O teste real virá com a capacidade da região de converter receitas de fósseis em ativos verdes — e de impedir que empréstimos climáticos virem nova crise de dívida. Quem acompanha alocação de capital na região deve monitorar a participação privada no Brasil e a dependência externa no Caribe: são os dois termômetros que dirão se o crescimento dos últimos quatro anos foi arrancada ou maratona.
