Três das quatro últimas eleições presidenciais no Brasil seguiram o mesmo roteiro: o governo acelera os gastos na reta final da campanha. Em 2026, não está sendo diferente.
O presidente Lula (PT) anunciou aumento do Bolsa Família, proibiu apostas esportivas — abrindo mão de receita tributária — e prometeu a terceira rodada do Desenrola, além de distribuição de medicamentos para emagrecimento pelo SUS. Tudo isso enquanto disputa voto a voto com Flávio Bolsonaro (PL).
O que os números mostram sobre o ciclo eleitoral
Um levantamento do Ibre/FGV, assinado pelo economista Luiz Guilherme Schymura, comparou o gasto primário federal em anos de eleição, corrigido pela inflação e sem efeitos sazonais. A base — sete trimestres antes da votação — foi fixada em 100.
Em 2022, as despesas ficaram paradas até o segundo trimestre. Entre julho e setembro, saltaram 11 pontos percentuais acima da referência. Bolsonaro concentrou anúncios nas semanas antes do segundo turno: antecipação do Auxílio Brasil, inclusão de 500 mil famílias, consignado para beneficiários, benefícios a taxistas e caminhoneiros, crédito para mulheres e uso do FGTS futuro.
Deu errado para o incumbente. Lula venceu com 50,83%, na eleição mais apertada desde a redemocratização.
2014 seguiu a mesma lógica
Dilma Rousseff (PT) também pisou no acelerador. No ano da reeleição, o gasto chegou ao trimestre pré-votação cerca de 10% acima da base. No trimestre eleitoral, mantinha-se 8 pontos percentuais acima. Dilma venceu Aécio Neves (PSDB) com 51,64%.
A exceção foi 2018. Michel Temer (MDB) não concorria. O gasto ficou estável, apenas 1% acima da referência no período eleitoral.
A conta que chega depois da urna
Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, as medidas mais recentes do governo Lula custarão pelo menos R$ 33 bilhões ao próximo governo — valor não previsto no projeto orçamentário já enviado ao Congresso.
- Aumento do Bolsa Família: R$ 23 bilhões
- Desenrola 3 e demais medidas: diferença restante
A legislação eleitoral veda novos gastos no período, mas o governo argumenta que apenas repôs a inflação no Bolsa Família. O problema: não havia previsão dessa correção na peça orçamentária entregue 17 dias antes do anúncio.
Déficit crônico e dívida em alta
O Brasil completa 13 anos de déficit primário — quando o gasto supera a receita, sem contar juros. Para cobrir o buraco, o governo se endivida. Quanto mais dívida, maiores os juros cobrados pelos credores.
Quando Lula assumiu, a dívida pública era 71% do PIB. Hoje atinge 82,5%.
Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, resume: “É da dinâmica de qualquer democracia governos gastarem mais no ano eleitoral, mas temos uma situação cronicamente desfavorável”.
O orçamento otimista demais
A IFI identificou uma diferença de R$ 100 bilhões entre as contas do governo e a análise técnica do Senado — sem contar as medidas recentes.
A discrepância vem de premissas metodológicas. O governo projeta PIB a 2,4% em 2027; a IFI, 1,8%. Isso infla a estimativa de arrecadação da equipe econômica frente à dos técnicos do Legislativo.
O iceberg do crédito: R$ 255 bilhões em estímulos
Economistas Manoel Pires e Bráulio Borges mapearam R$ 254,8 bilhões em medidas de estímulo no período atual. Desse total, 72% (R$ 183,4 bi) são iniciativas de crédito — que, em grande parte, não aparecem como gasto primário no Orçamento.
Excluindo ações recorrentes e ligadas à guerra no Oriente Médio, o núcleo do pacote soma R$ 190,1 bilhões. Desses, 88% (R$ 166,7 bi) estão atrelados a crédito.
Entre as políticas associadas ao ciclo político: Desenrola, Move Brasil (caminhões e motoristas de app), crédito para MPEs, indústria 4.0, empresas aéreas e expansão do Minha Casa, Minha Vida.
Nem tudo é eleitoral. O Brasil Soberano e financiamentos verdes usam fontes tradicionais como o FAT.
Economia aquecida muda a natureza do risco
A Carta do Ibre destaca diferença crucial frente a 2022: o hiato do produto está positivo. Em português claro: a economia já opera no limite, sem folga para crescer sem pressionar preços.
Em 2022, o impulso foi anticíclico — ajudou a puxar uma economia que precisava de fôlego. Em 2026, é pró-cíclico: estímulos adicionais pressionam a demanda numa economia já aquecida, elevando o risco inflacionário.
O que observar daqui para frente
O ciclo político de 2026 pode não deixar uma herança fiscal dramática para o próximo mandato, mas o estímulo de crédito numa economia alavancada adiciona complexidade à equação de 2027. O próximo presidente herdará uma dívida acima de 82% do PIB, déficit estrutural e um Orçamento com projeções otimistas. A combinação exige escolhas duras nos primeiros meses de gestão — independentemente de quem vença em outubro.
