Economia

Gasto público explode em ano de eleição: o padrão que se repete há 12 anos

Gráfico mostra aumento de gastos públicos em anos eleitorais no Brasil desde 2012
Gastos públicos disparam em anos de eleição presidencial, padrão repetido há 12 anos.

Três das quatro últimas eleições presidenciais no Brasil seguiram o mesmo roteiro: o governo acelera os gastos na reta final da campanha. Em 2026, não está sendo diferente.

O presidente Lula (PT) anunciou aumento do Bolsa Família, proibiu apostas esportivas — abrindo mão de receita tributária — e prometeu a terceira rodada do Desenrola, além de distribuição de medicamentos para emagrecimento pelo SUS. Tudo isso enquanto disputa voto a voto com Flávio Bolsonaro (PL).

O que os números mostram sobre o ciclo eleitoral

Um levantamento do Ibre/FGV, assinado pelo economista Luiz Guilherme Schymura, comparou o gasto primário federal em anos de eleição, corrigido pela inflação e sem efeitos sazonais. A base — sete trimestres antes da votação — foi fixada em 100.

Em 2022, as despesas ficaram paradas até o segundo trimestre. Entre julho e setembro, saltaram 11 pontos percentuais acima da referência. Bolsonaro concentrou anúncios nas semanas antes do segundo turno: antecipação do Auxílio Brasil, inclusão de 500 mil famílias, consignado para beneficiários, benefícios a taxistas e caminhoneiros, crédito para mulheres e uso do FGTS futuro.

Deu errado para o incumbente. Lula venceu com 50,83%, na eleição mais apertada desde a redemocratização.

2014 seguiu a mesma lógica

Dilma Rousseff (PT) também pisou no acelerador. No ano da reeleição, o gasto chegou ao trimestre pré-votação cerca de 10% acima da base. No trimestre eleitoral, mantinha-se 8 pontos percentuais acima. Dilma venceu Aécio Neves (PSDB) com 51,64%.

A exceção foi 2018. Michel Temer (MDB) não concorria. O gasto ficou estável, apenas 1% acima da referência no período eleitoral.

A conta que chega depois da urna

Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, as medidas mais recentes do governo Lula custarão pelo menos R$ 33 bilhões ao próximo governo — valor não previsto no projeto orçamentário já enviado ao Congresso.

  • Aumento do Bolsa Família: R$ 23 bilhões
  • Desenrola 3 e demais medidas: diferença restante

A legislação eleitoral veda novos gastos no período, mas o governo argumenta que apenas repôs a inflação no Bolsa Família. O problema: não havia previsão dessa correção na peça orçamentária entregue 17 dias antes do anúncio.

Déficit crônico e dívida em alta

O Brasil completa 13 anos de déficit primário — quando o gasto supera a receita, sem contar juros. Para cobrir o buraco, o governo se endivida. Quanto mais dívida, maiores os juros cobrados pelos credores.

Quando Lula assumiu, a dívida pública era 71% do PIB. Hoje atinge 82,5%.

Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, resume: “É da dinâmica de qualquer democracia governos gastarem mais no ano eleitoral, mas temos uma situação cronicamente desfavorável”.

O orçamento otimista demais

A IFI identificou uma diferença de R$ 100 bilhões entre as contas do governo e a análise técnica do Senado — sem contar as medidas recentes.

A discrepância vem de premissas metodológicas. O governo projeta PIB a 2,4% em 2027; a IFI, 1,8%. Isso infla a estimativa de arrecadação da equipe econômica frente à dos técnicos do Legislativo.

O iceberg do crédito: R$ 255 bilhões em estímulos

Economistas Manoel Pires e Bráulio Borges mapearam R$ 254,8 bilhões em medidas de estímulo no período atual. Desse total, 72% (R$ 183,4 bi) são iniciativas de crédito — que, em grande parte, não aparecem como gasto primário no Orçamento.

Excluindo ações recorrentes e ligadas à guerra no Oriente Médio, o núcleo do pacote soma R$ 190,1 bilhões. Desses, 88% (R$ 166,7 bi) estão atrelados a crédito.

Entre as políticas associadas ao ciclo político: Desenrola, Move Brasil (caminhões e motoristas de app), crédito para MPEs, indústria 4.0, empresas aéreas e expansão do Minha Casa, Minha Vida.

Nem tudo é eleitoral. O Brasil Soberano e financiamentos verdes usam fontes tradicionais como o FAT.

Economia aquecida muda a natureza do risco

A Carta do Ibre destaca diferença crucial frente a 2022: o hiato do produto está positivo. Em português claro: a economia já opera no limite, sem folga para crescer sem pressionar preços.

Em 2022, o impulso foi anticíclico — ajudou a puxar uma economia que precisava de fôlego. Em 2026, é pró-cíclico: estímulos adicionais pressionam a demanda numa economia já aquecida, elevando o risco inflacionário.

O que observar daqui para frente

O ciclo político de 2026 pode não deixar uma herança fiscal dramática para o próximo mandato, mas o estímulo de crédito numa economia alavancada adiciona complexidade à equação de 2027. O próximo presidente herdará uma dívida acima de 82% do PIB, déficit estrutural e um Orçamento com projeções otimistas. A combinação exige escolhas duras nos primeiros meses de gestão — independentemente de quem vença em outubro.