Economia

O segredo que ninguém conta: Brasil fatura US$ 23 bi sem os EUA

Gráfico mostra superávit comercial brasileiro de US$ 23 bi em 2026 com diversificação de mercados
Brasil atinge recorde de superávit comercial de US$ 23 bilhões em 2026 apesar de queda nas exportações para os EUA

O Brasil acumula superávit comercial de US$ 23 bilhões nos oito primeiros meses de 2026, um recorde alcançado justamente enquanto as exportações para os Estados Unidos despencam ao menor patamar desde 2023. A conta fecha no azul porque o mapa de destinos mudou radicalmente. A grande pergunta agora é: até quando o fôlego dos novos parceiros compensa a perda do maior consumidor mundial?

O efeito Índia e a virada europeia

Dados da ApexBrasil revelam que a diversificação não é apenas discurso. As vendas para a Índia saltaram US$ 3,6 bilhões no acumulado do ano, catapultando o país da 40ª posição histórica para o 4º maior comprador, empatado com a Argentina. Enquanto isso, a balança com os EUA encolheu US$ 2,6 bilhões no mesmo período.

O dado mais surpreendente, porém, vem da Europa. O bloco saiu de um déficit de US$ 885 milhões em 2025 para um superávit de US$ 5 bilhões em 2026. A China segue como motor principal, respondendo sozinha por US$ 10 bilhões do saldo positivo total.

O preço da adaptação: quem ficou para trás

Nem todos surfam nessa onda. Setores que produzem sob medida para o gosto americano — têxtil, calçados e moveleiro — enfrentam a tempestade perfeita: tarifa alta, impossibilidade de cortar custos e concorrência global feroz. Na indústria calçadista, onde 90% das empresas são micro ou pequenas, as exportações caíram 17% em valor, o pior resultado desde a pandemia.

Para a economista Lia Valls (FGV Ibre/Uerj), o impacto é heterogêneo:

  • Grandes corporações redirecionam fluxos usando redes globais já estabelecidas.
  • PMEs de manufatura customizada travam; não há para onde ir com produto feito para o varejo dos EUA.
  • Agronegócio sofre menos pela dependência americana, mas segmentos específicos seguem taxados.

O fim das regras do jogo antigas

Segundo Marcos Jank (Insper Agro Global), o arcabouço do século XX — blocos econômicos, multilateralismo e OMC — foi enterrado. O novo normal é a negociação bilateral, pontual e assimétrica com Washington. “Não há mais para quem recorrer”, resume. Essa realidade forçou 78% das 2.400 empresas que exportavam para os EUA em maio de 2025 a buscar mercados alternativos já em junho de 2026.

Plano de voo: R$ 210 milhões para 5.300 empresas

O governo lançou o Plano de Diversificação de Exportações via ApexBrasil. O pacote prevê:

  • Inteligência de mercado e promoção comercial;
  • Acesso direto a compradores qualificados;
  • Atendimento especializado para 1.600 empresas já mapeadas (meta de 5.300);
  • Participação em feiras no Canadá, México, América Central, Caribe e Bahamas.

O presidente da agência, Laudemir Müller, frisa: o objetivo não é substituir o mercado americano, mas criar colchões de segurança. A aproximação com África do Sul, Angola, Etiópia e Nigéria segue a mesma lógica.

O que observar daqui para frente

A reorganização geopolítica abre janelas: países também afetados pelas tarifas americanas olham para o Brasil com mais apetite. Contudo, a dependência de commodities para sustentar o superávit expõe a fragilidade da pauta industrial. O empresário deve monitorar dois vetores: a capacidade real de penetração em mercados de alta complexidade (Europa/Índia) e a evolução do contencioso na OMC, única arena — ainda que enfraquecida — onde se discute a legalidade do tarifaço. A diversificação começou por necessidade; sua perenidade dependerá de competitividade, não apenas de oportunidade.