A co-presidente da Disney, Dana Walden, admitiu que a reestruturação contínua é uma questão de sobrevivência para o conglomerado. A declaração foi feita durante a conferência Bloomberg Screentime, em Los Angeles, e expõe a tensão entre custos, tecnologia e talentos de peso. O que isso sinaliza para o futuro da empresa e de seus maiores nomes?
Walden classificou os cortes recentes como “extremamente dolorosos”, mas inevitáveis. A executiva revelou que a última onda fez parte de um programa de desligamento voluntário oferecido a executivos, que puderam escolher entre sair agora ou permanecer sabendo que a transformação não tem data para acabar.
O programa voluntário e a conta dos 1.000 desligamentos
Em abril, cerca de 1.000 funcionários deixaram a companhia após a chegada da nova liderança no parque de diversões. O movimento não foi isolado: faz parte de um ciclo de avaliação constante da estrutura organizacional, segundo a própria Walden.
- Perfil dos cortes: focado em camadas executivas e gerenciais.
- Mecanismo: adesão voluntária com janela de decisão definida.
- Mensagem interna: a evolução estrutural é permanente.
A lógica declarada é simples: a tecnologia colocou o modelo tradicional na mira. Concorrentes de mídia e big techs enfrentam o mesmo dilema, forçando uma reavaliação permanente de custos e agilidade.
Tecnologia na mira: por que a reestruturação “nunca vai parar”
Walden foi direta: “Temos que sobreviver, prosperar e crescer”. A pressão vem de dois lados — a migração de audiência para streaming e a entrada de empresas de tecnologia no negócio de conteúdo. Isso exige equipes mais enxutas, ciclos de decisão mais curtos e disposição para matar projetos que não escalam.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: a programação de entretenimento ao vivo e o late-night.
O nó do late-night: Kimmel, Trump e a licença da ABC
O apresentador Jimmy Kimmel virou ponto de tensão política e regulatória. Em 2025, seu programa saiu do ar brevemente após um comentário sobre o assassinato de Charlie Kirk, aliado de Donald Trump. Meses depois, a FCC (comissão de telecomunicações dos EUA) antecipou a revisão da licença da ABC — emissora da Disney que exibe o talk-show — após pressão direta do ex-presidente por uma piada envolvendo a primeira-dama.
Walden reconheceu a qualidade do trabalho de Kimmel e o crescimento de audiência, mas contextualizou: o aumento ocorreu sobre uma base menor, típica da TV aberta noturna atual.
YouTube não paga as contas: o dilema da rentabilidade
Milhões de visualizações no YouTube não se traduzem em receita equivalente à de um talk-show de horário nobre na TV aberta. A executiva resumiu o impasse: “Não é uma oportunidade lucrativa para um programa de entrevistas de alto nível”.
A Disney está em busca de uma solução que equilibre três variáveis: o que Kimmel deseja, o que faz sentido criativo e o que sustenta o negócio. A amizade pessoal e a proximidade do apresentador com a cúpula da empresa existem, mas não eliminam a equação financeira.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem atenção nos próximos trimestres: a conclusão do ciclo de cortes voluntários e seu impacto na velocidade de lançamento de produtos; o desfecho da revisão de licença da ABC e seu efeito sobre a autonomia editorial; e a renegociação — ou saída — de Kimmel, que servirá de termômetro para como a Disney lida com ativos de alto custo e alta exposição política em um ambiente de margens comprimidas.
