A cidade venezuelana de El Tigre, a seis horas de Caracas, virou o epicentro silencioso da reabertura do setor petrolífero — e os números do mercado imobiliário provam que o movimento é real. Aluguéis de sobrados mobiliados saltaram 200% em um ano, enquanto escritórios comerciais modernos praticamente não têm mais vagas. Mas a produção de petróleo ainda não acompanhou a euforia.
Jatos particulares pousam semanalmente no aeroporto local. Venezuelanos regressam do exterior para vagas em empresas de serviços que se multiplicam. A transportadora Frontier Forwarders, baseada no Texas, dobrou o volume de equipamentos e triplicou a carteira de clientes entre fevereiro e outubro. O frenesi antecede a extração de um único barril novo.
O gatilho político que mudou o jogo
A captura de Nicolás Maduro em janeiro abriu caminho para a presidência interina de Delcy Rodríguez, com respaldo dos EUA. O novo governo reformulou a legislação petroleira ainda no primeiro semestre: reduziu impostos e royalties, além de ampliar o espaço para operadoras privadas em áreas antes exclusivas da PDVSA.
A aposta antecedeu a queda do regime. A turca Çan2 Termik comprou participação na Denarius Pumping Services em 2024. Em setembro, a afiliada americana Denarius Holding Group assinou contrato de US$ 400 milhões com a estatal para recuperar e perfurar campos na região.
“Vimos o enorme crescimento que pode resultar dos investimentos e das regulamentações adequados e achamos que poderíamos reproduzir isso na Venezuela”, disse Zehra Zeynep Dereli, vice-presidente do Denarius Holding Group.
Gigantes globais já estão no terreno
Três nomes pesados comandam a expansão operacional a partir de El Tigre:
- Weatherford International (EUA): multiplicou por dez a força de trabalho especializada no país
- Alvorada Oil & Gas (Brasil): 250 funcionários, fábrica local de equipamentos e plano de US$ 70 milhões para 2027
- GeoPark (Colômbia): recrutando venezuelanos da diáspora para compor equipes técnicas
A taxa de ocupação do hotel Eurobuilding El Tigre disparou de 35% para 87% em doze meses, segundo o CEO Eduardo Zarikian. A previsão oficial aponta aumento de produção a partir de dezembro, quando os novos contratos começam a operar.
Por que a Faixa do Orinoco anda mais rápido que Maracaibo
A geologia explica parte da dianteira. A maior parte das operações no Orinoco ocorre em terra, o que permite reativar poços e infraestrutura existente com investimentos menores. No Lago de Maracaibo, a complexidade offshore exige aportes mais vultosos e prazos maiores.
Empresas que assinaram acordos recentes têm até 120 dias para inspecionar campos, avaliar reservas remanescentes e danos ambientais, e apresentar planos de produção. Algumas esperam assumir o controle total e iniciar obras ainda este ano.
O abismo entre expectativa e realidade nas ruas
Apesar do capital chegando, a produção nacional estaciona em 1,2 milhão de barris/dia — um terço do pico dos anos 1990. A meta oficial projeta US$ 76 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos, mas o ceticismo persiste entre quem vive o dia a dia.
Engenheiras e empresários locais relatam que contratos de aluguel de pátios industriais são fechados por um ano, não cinco. “Elas estão adotando uma postura cautelosa, como quem diz: ‘Vamos ver o que acontece'”, resume Yasmina Requena, avaliadora de equipamentos para campos.
Infraestrutura que não acompanha o dinheiro
O boom imobiliário contrasta com serviços públicos precários. Apagões prolongados derrubam estações de bombeamento de água, mesmo com a cidade sobre grande aquífero. Esgoto a céu aberto ainda corre por ruas de bairros nobres. Shoppings mantêm lojas vazias onde antes funcionavam bancos e varejistas.
Remo Di Marcantonio, dono de uma ferragem local, resume: “Não vejo mudança alguma. O dinheiro não está circulando pelas ruas. Há um pouco mais de movimento, sem dúvida, mas nem de longe tanto quanto há 20 anos.”
O que observar nos próximos trimestres
Três indicadores dirão se o ciclo atual se sustenta ou estanca:
- Conversão de contratos assinados em perfuração efetiva e produção incremental
- Resolução da escassez de mão de obra certificada — cursos para operadores de máquinas pesadas e especialistas ambientais estão lotados
- Melhoria tangível em energia e saneamento, sem a qual a retenção de talentos e a operação contínua ficam comprometidas
Executivos do setor apontam 2028 como o horizonte real para medir resultados concretos. Até lá, El Tigre segue como termômetro: se os aluguéis mantêm a alta e os jatos continuam pousando, a aposta persiste. Se a ocupação hoteleira recuar ou os pátios alugados por um ano não forem renovados, o sinal será outro.
