O fundo de pensão dos trabalhadores paraguaios de Itaipu tinha R$ 86 milhões presos no Ueno Bank, instituição liquidada pelo Banco Central do Paraguai esta semana. A cifra representa 2,8% do patrimônio total da Cajubi, mas esconde uma trajetória de risco que só agora vem à tona. O tamanho da exposição surpreende até analistas acostumados com crises bancárias na região.
A escalada silenciosa do risco
Os balanços da própria entidade revelam uma aceleração vertiginosa nos aportes. No início de 2025, a posição em Certificados de Depósito de Ahorro (CDA) do banco era de G$ 26,3 bilhões (R$ 22,5 milhões). Ao final do ano, saltou para G$ 41,3 bilhões (R$ 35,3 milhões). O comunicado da última quarta-feira (4) confirma o saldo final de G$ 100,692 bilhões.
Isso significa uma alta de 143,8% em relação ao fim de 2025 e de 282,6% na comparação com janeiro. A gestão concentrou recursos em uma única instituição justo no momento em que o mercado já sinalizava instabilidade no grupo controlador.
O elo com o Grupo Vázquez e o “efeito Master”
Além da exposição direta no banco, a Cajubi mantinha G$ 16,391 bilhões (cerca de R$ 14 milhões) em bônus da dívida do Grupo Vázquez, controlador do Ueno. Na prática, o fundo emprestou tanto para o banco quanto para o dono do banco — uma concentração de risco setorial que viola princípios básicos de diversificação.
O caso ecoa o escândalo do Banco Master no Brasil. No ano passado, institutos de previdência brasileiros aplicaram R$ 1,8 bilhão em letras financeiras da instituição sem garantia do FGC. Parte desses investimentos segue sob investigação. A semelhança não é coincidência: fundos de pensão, pressionados por metas atuariais, têm migrado para ativos de maior risco e menor liquidez em busca de rentabilidade.
- Exposição total no Ueno: G$ 100,692 bi (R$ 86 mi) — 2,8% do patrimônio.
- Títulos do Grupo Vázquez: G$ 16,391 bi (R$ 14 mi).
- Cobertura do Fundo Garantidor paraguaio: G$ 228,3 mi (R$ 195 mil) por depositante.
- Défase real: O valor da Cajubi equivale a 441 vezes o teto de garantia.
Lado brasileiro blindado, mas reputação abalada
A Itaipu Binacional informou que a margem brasileira não possui recursos aplicados no Ueno. A gestão financeira do lado brasileiro segue normas internas com critérios de segurança, liquidez e rentabilidade, separadas da gestão paraguaia pelo Tratado de 1973. A operação da usina — responsável por 17% da energia consumida nos dois países — segue inalterada.
Contudo, a governança conjunta da binacional coloca holofotes sobre os processos de compliance e due diligence do lado paraguaio. A Cajubi afirma que a escolha baseou-se em “critérios técnicos, indicadores financeiros e parâmetros regulatórios do BCP”, mas não detalhou quais eram esses indicadores às vésperas da liquidação.
O que observar daqui para frente
A entidade convocou aposentados e pensionistas para reunião na terça-feira (10), em Ciudad del Este, para detalhar as ações de recuperação. Até o momento, a reportagem não obteve resposta sobre a estratégia concreta de recuperação dos ativos. O comunicado de novembro garantia normalidade no pagamento de benefícios, mas o silêncio sobre a alocação exata dos G$ 100 bilhões na data da quebra levanta dúvidas sobre a liquidez imediata da carteira.
Para investidores e gestores de fundos de pensão na região, o caso serve como alerta: concentração em emissores de risco similar — banco e controladora — multiplica a perda em cenários de estresse sistêmico. Acompanhe a assembleia da Cajubi e os desdobramentos da liquidação extrajudicial no BCP; eles ditarão o ritmo da recuperação e a jurisprudência para futuros calotes transfronteiriços.
