Internacional

O segredo da viagem de Lula a Manila: acesso a mercado de US$ 38 bi em jogo

Lula em cúpula da ASEAN em Manila negocia acesso a mercado de 38 bilhões de dólares
Presidente Lula participa da Cúpula da ASEAN em Manila buscando expandir comércio com bloco de 11 nações.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Manila nos próximos dias para uma ofensiva diplomática que pode recolocar o Brasil na rota dos grandes fluxos comerciais do Sudeste Asiático. Pelo segundo ano consecutivo, o país é convidado de honra na Cúpula da ASEAN, o bloco que reúne 11 nações e um PIB combinado superior a US$ 3 trilhões. A presença não é cerimonial: há um pedido formal na mesa que, se atendido, equipara o Brasil a potências como EUA, Japão e Coreia do Sul.

O status que muda o jogo para exportadores

Em janeiro de 2026, o Itamaraty protocolou a solicitação para elevar a parceria de “Parceiro de Diálogo Setorial” para “Parceiro de Diálogo Pleno”. É o degrau mais alto de engajamento disponível para nações de fora do bloco. Na prática, isso significa acesso preferencial a negociações tarifárias, facilitação de investimentos e assento em grupos de trabalho técnicos que definem regras sanitárias e fitossanitárias — entraves históricos para o agro brasileiro.

A embaixadora Susan Kleebank, secretária de Ásia e Pacífico do MRE, resume a aposta: a elevação transforma a proximidade política em ferramenta concreta de redução de custos logísticos e burocráticos. O discurso de abertura reservado a Lula na cúpula — privilégio raro para não-membros — sinaliza que o bloco leva a candidatura a sério.

Números que explicam a pressa do Planalto

O comércio bilateral saltou de US$ 3 bilhões para US$ 38 bilhões entre 2003 e 2025. A taxa média anual de 12% supera a média global e expõe uma dependência crescente que o governo quer blindar com arcabouço jurídico. Veja a composição do bloco e o tamanho da oportunidade:

  • Membros: Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Timor-Leste, Mianmar, Brunei, Camboja e Laos.
  • População somada: mais de 680 milhões de consumidores.
  • Crescimento médio do PIB (pré-pandemia): acima de 4,5% ao ano.

Para o empresariado, o sinal verde ao status de Parceiro Pleno reduz a volatilidade de acesso a mercados que já compram soja, carnes, minério e petróleo brasileiro em escala.

Filipinas: o parceiro esquecido que quadruplicou

Antes da cúpula multilateral, Lula cumpre visita de Estado às Filipinas no dia 14, marcando 80 anos de relações diplomáticas. O comércio bilateral multiplicou por quatro desde 2016, mas a pauta continua concentrada em café, açaí, sucos e processados (massas e biscoitos). A meta declarada é diversificar a cesta e escalar volumes.

O encontro bilateral serve de laboratório: se o Brasil consegue furar barreiras não-tarifárias em Manila, o modelo replica-se para Indonésia e Vietnã, importadores muito maiores dos mesmos segmentos.

Agenda paralela: seis bilaterais e a sombra da COP31

Lula chega vindo de Antália (Turquia), onde participou da COP31. A ponte entre clima e comércio é direta: a ASEAN demanda créditos de carbono e tecnologia verde, setores onde o Brasil tem vantagem comparativa. Seis países já solicitaram reuniões de trabalho à parte — a lista não é pública, mas Indonésia, Vietnã e Singapura são apostas certas dada a densidade comercial.

O voo de 14 horas entre Turquia e Filipinas simboliza o esforço logístico de um governo que vê na Ásia o contrapeso necessário à concentração excessiva nas relações com China, EUA e União Europeia.

O que observar daqui para frente

A decisão sobre o status de Parceiro de Diálogo Pleno não tem data para sair, mas o convite recorrente e o protagonismo na cúpula indicam que o anúncio pode vir ainda no primeiro semestre de 2027. Enquanto isso, monitore três variáveis: a tramitação de acordos de reconhecimento mútuo de certificados sanitários, a abertura de linhas de financiamento do BNDES para infraestrutura no Sudeste Asiático e a agenda de missões empresariais setoriais previstas para 2027. Quem antecipar a certificação ganha tempo de mercado; quem esperar a assinatura do acordo chega atrasado.