Economia

Lula repete 2022: o roteiro secreto por trás da demora na Fazenda

Lula no Palácio da Alvorada em reunião com economistas sobre Ministério da Fazenda
Presidente Lula recebe economistas no Alvorada enquanto mercado especula sobre novo ministro da Fazenda

O presidente Lula deixou as apostas para o Ministério da Fazenda correrem soltas — exatamente como fez há dois anos. A diferença? Desta vez não há governo novo para justificar o silêncio.

Nomes como Geraldo Alckmin, Rafael Fonteles, Dario Durigan, Bruno Moretti e até um “Haddad versão 2” circulam nos bastidores. Enquanto o mercado especula, o Planalto assiste.

O déjà vu que ninguém esperava

A reunião desta semana no Palácio da Alvorada com economistas e ministros foi praticamente uma reprise de novembro de 2022. Naquela ocasião, Lula ouviu André Lara Resende, Nelson Barbosa, Guilherme Mello, Pérsio Arida e Gabriel Galípolo. Também estavam Alckmin, Gleisi Hoffmann, Aloizio Mercadante e o próprio Haddad.

O resultado? Nenhuma decisão. Apenas diálogo. Os relatos da imprensa, à exceção dos nomes presentes, poderiam ser copiados e colados dos textos atuais.

O cronograma que se repete

Em 2022, a eleição ocorreu em 30 de outubro. O anúncio oficial de Haddad saiu apenas em 9 de dezembro — um mês e meio depois. O presidente usou esse vácuo para testar reações, medir o mercado e consolidar apoios internos.

Agora, o mesmo script se desenha. A demora não é indecisão; é estratégia.

O ponto de virada: a viagem à COP

Dois anos atrás, Lula viajou para a COP do Egito levando Haddad na comitiva. Nos bastidores, aquela foi a viagem onde o nome foi sacramentado. O avião presidencial funcionou como sala de decisão.

Desta vez, o destino é a Turquia. A estrutura se repete, mas falta um ingrediente essencial: o frescor de um mandato recém-conquistado.

A polarização que não muda

O debate interno no PT e na esquerda continua idêntico. De um lado, a defesa do ajuste das contas públicas. Do outro, a prioridade absoluta às políticas sociais. A tensão entre responsabilidade fiscal e mandato popular segue ditando o ritmo das conversas.

Integrantes da esquerda chegaram a escrever na Folha que o voto conferia a Lula o poder de enfrentar a “cilada do ajuste fiscal”. A retórica permanece. O cenário fiscal, não.

O que muda na prática para o investidor

  • Previsibilidade reduzida: a demora sinaliza que o presidente testa limites antes de decidir
  • Sinal de continuidade: nomes ligados à equipe atual (Durigan, Moretti) ganham força
  • Risco de surpresa: assim como em 2022, a definição pode vir de forma abrupta, em viagem oficial

O que observar daqui para frente

A agenda internacional de Lula nas próximas semanas será o termômetro mais confiável. Se o presidente embarcar para a COP com algum nome da equipe econômica ao lado, a leitura do mercado deve ser imediata: a decisão já foi tomada. Até lá, a volatilidade cambial e de juros futuros tende a responder mais a ruídos de bastidor do que a fundamentos. Quem leu até aqui sabe: o jogo é de paciência — e de memória.