O presidente Lula deixou as apostas para o Ministério da Fazenda correrem soltas — exatamente como fez há dois anos. A diferença: agora não há governo novo para justificar o silêncio.
Na transição de 2022, o petista esperou 40 dias após a vitória para confirmar Fernando Haddad. Hoje, com mandato em andamento, o roteiro se repete: reunião no Alvorada, economistas ouvidos, nenhuma decisão anunciada.
O déjà-vu do Palácio da Alvorada
Na última semana, Lula recebeu economistas e ministros no mesmo cenário de novembro de 2022. Naquela ocasião, estiveram à mesa André Lara Resende, Nelson Barbosa, Guilherme Mello, Pérsio Arida e Gabriel Galípolo — cotado para o BNDES, cargo que acabou com Aloizio Mercadante.
Também participaram Geraldo Alckmin, Gleisi Hoffmann, o próprio Mercadante e Haddad. O objetivo declarado: avaliar o cenário econômico, desafios e condições para o crescimento. O resultado: “diálogo, sem decisões”, segundo relatos de ambas as épocas.
Nomes na bolsa de apostas: velhos e novos
A lista de cotados mistura continuidade e renovação:
- Fernando Haddad — “versão 2.0”, segundo interlocutores
- Geraldo Alckmin — vice-presidente e articulador político
- Rafael Fonteles — governador do Piauí, nome técnico
- Dario Durigan — secretário-executivo da Fazenda atual
- Bruno Moretti — assessor especial da presidência
Em 2022, a definição saiu durante a COP do Egito, onde Lula viajou com Haddad. Agora, o presidente embarca para a COP da Turquia — mas sem o frescor de quem chega ao poder.
O dilema fiscal que não muda
A polarização interna no PT e na esquerda permanece idêntica: ajuste das contas públicas versus expansão das políticas sociais. Integrantes da esquerda chegaram a escrever, na época, que o mandato das urnas dava a Lula o poder de “lutar contra a cilada do ajuste fiscal”.
Hoje, o cenário macroeconômico cobra respostas mais urgentes. A dívida pública supera 76% do PIB, os juros reais estão entre os maiores do mundo e o arcabouço fiscal aprovado em 2023 exige demonstração de compromisso com as metas.
Por que o silêncio pesa mais agora
Dois anos atrás, a incerteza fazia parte da transição. Hoje, o mercado precifica risco político a cada dia sem sinalização clara. O dólar oscila acima de R$ 5,70 e a curva de juros longo reflete desconfiança sobre a trajetória fiscal.
Além disso, Haddad acumula desgaste: embates com o Congresso sobre desoneração da folha, pressão por corte de gastos e a necessidade de entregar o novo PAC sem estourar o teto.
O que observar nas próximas semanas
A viagem à COP da Turquia pode ser o gatilho — ou mais um capítulo de espera. Diferente de 2022, Lula não precisa “escolher” um ministro; precisa decidir se mantém, reposiciona ou substitui quem já comanda a pasta.
Três sinais merecem atenção: agenda do presidente nos próximos 15 dias, movimentação de Durigan e Moretti em Brasília, e eventuais vazamentos sobre conversas com lideranças do Centrão. O anúncio, quando vier, dirá mais sobre a estratégia política para 2026 do que sobre economia.
